Diva agradece depois do Boom Festival.

Queridos Boomers,

Aqui fica um memorando, em tom de agradecimento, por todos os ensinamentos adquiridos durante mais uma experiência boombástica, a qual sem vós não teria sido possível.

A todos aqueles que estiveram presentes

Um grande obrigada por terem participado neste festival onde, mais uma vez, tivemos oportunidade de libertar a nossa criança interior em conjunto.

Aos que a perderam lá, sinceros votos de que a encontrem brevemente.

Obrigada ao pessoal da restauração e das lojas de roupa Griffe-freaky

Obrigada por me terem feito gastar uma fortuna em comida sem carne, quinoa com legumes de verão, glitter orgânico ou em óleos essenciais que se colocam nas fontes de maneira a que nos sintamos revitalizados. Estas fórmulas, de origem natural com certificados de pureza garantidos, eram por lá vendidas por uma emergente camada jovem. Porventura com ar de boas famílias, estes queridos aparentemente resolveram dedicar-se à conceção destas matérias que não penalizam o ambiente e que possuem um grau terapêutico avançado, capaz de equilibrar a flora intestinal, principalmente aquando da ingestão simultânea de pudim chia. Acho que é um conceito deveras relevante mas confesso que prefiro Nuxe para manter um brilho 95% botânico e natural. Os restantes 5% ainda estão a ser estudados em Paris. Lá chegaremos.

Obrigada também por colocaram à nossa disposição roupa incrivelmente desenhada, como calças de lycra com padrões que nos permitem prolongar o LSD na tenda, vestidos (giros de morrer, é um facto) que custam mais do que um tailleur da YSL e bolsas feitas com pele de origem animal que vêm corromper com as filosofias propagadas no festival. Toda a gente sabe que as malas de pele duram uma vida e a verdade é que ninguém quer ser visto com acessórios de polipele a passear pelo recinto. Também não gostaria de passar por tamanho vexame.

Obrigada a todo o Staff da restauração por me fazerem acreditar que é possível trabalhar e consumir gotas durante dias a fio. Andamos nós, os comuns dos mortais, a fazer queixinhas dos nossos trabalhos dignos de escritório, em que só nos levantamos para ir à impressora, e nem pensamos no quão duro deve ser servir spaghetti enquanto lutamos com cobras durante uma tempestade de parmesão. Grande bem haja para estes empregados do mês.

Agradecida também estou por termos gasto o orçamento doméstico num bar chamado “Poison” ao qual alguém gentilmente passou os dias a trocar o seu nome por “Tóxico” (que efetivamente faz bastante mais sentido) e ter que comer latas de atum com azia a vodca até outubro. Muitíssimo obrigada.

Obrigada a todos aqueles que não urinaram na La Goa, especialmente na Funky Beach

Seus valentes, capazes de guardarem as necessidades mais básicas de um ser humano em prol de um bem comum. Isto sim, é fazer o país andar para a frente. Bem sabemos que estar na fila do WC, de papel higiénico na mão, sujeitos a penetrar a intimidade de alguém totalmente aleatório, não é fácil. Aliás, a corrida inevitável ao WC é um jogo de sorte. Quem apanhar a casinha mais limpa, ganha, quem tiver o desassossego de partilhar o fosso do mal com o Techno Viking em MD, perde. Claramente que perde.

Obrigada ao pessoal do Hospital do Boom Festival

Tive a infelicidade de acompanhar alguém próximo ao Hospital por padecer de um mal, deveras subestimado, com o fantástico nome clínico: “Assaduras nas Virilhas”. Quando chegámos ao posto improvisado mas com condições capazes, demos de caras com uma equipa para lá de simpática e muito paciente que nos prometeu auxílio rápido.

Ao lado do bebé assado estava um rapaz com as patorras todas ligadas com gaze, com ar de poucos amigos, enquanto recebia um sermão de uma senhora muito amorosa que o aconselhava a fazer pausas durante os períodos de dança, para não acabar com duas múmias até aos tornozelos. Razoável, pareceu-me, apesar do pequeno não se ter manifestado muito recetivo.

Além deste simpático companheiro de triagem, também nos chegou uma maca com uma menina deitada, trazida por dois auxiliares, entre os quais um deles dizia alto: “Ela estava a fazer uma performance na pista e aleijou-se no pé!”. Pobre Pina Bausch, pensei… Mas não foi grave, percebi isso. Brevemente estará por aí a atuar novamente nesses grandes palcos da Marateca.

Obrigada também aos Arquitetos de formação Psicadélica

O Boom Festival é fruto de uma produção absolutamente genial. E não, não estou a exagerar. As tendas que albergam as pistas de dança são projetos altamente elaborados que contemplam uma estética entre o psicadelismo e o exorcismo de almas, onde as formas geométricas se coadunam com elementos abstratos, dignos de obras visionárias que emanam beleza e espiritualidade. No fundo, é como se pedissem a Alex Grey, um dos mestres desta arte, para pensar numa EurofreakyDisney para adultos.

Esta edição decidiram vestir o Dance Temple, o templo sagrado do trance e onde são assíduos os mais aficionados, com o pantone do ano: o Ultra Violet. E que escolha! Numa terra que parece não ser de ninguém, onde o Sol descansa em lençóis magenta e repousa a cabeça sobre azul, nada melhor que o violeta para atar tudo numa só fotografia. Uma ilusão que a Natureza ali ainda mantém viva, e que se transforma numa memória de um paraíso que ainda existe. Mas que é raro.

Eu sou mais influenciada pela paisagem do que pela matança de calorias e neurónios na pista durante oito horas seguidas. Gosto de dançar, naturalmente, mas preciso de umas pausas dignas de alguém que quer manter a cabeça fria. O trance é enérgico e libertador mas também consegue ser uma velha chata daquelas que grita pelos netos da varanda de casa. E que não se cala com cusquices o dia todo, não nos deixa dormir de manhã e se levanta cedo para ralhar com o cão. Maldita!

Obrigada à população beta e famosa que por lá apareceu

Num dos dias em que acordei na Boomland, depois de ter aberto a porta da minha fantástica tenda, a primeira cara que vi foi a elegantíssima Luísa Beirão. Ali estava Luisinha, sentada numa espécie de arca, com toda a classe própria de uma manequim de renome, que um dia também pertenceu a uma banda deveras carismática. Fiquei mais descansada visto ter percebido que, mesmo sem saber, havia escolhido a zona Vip do camping. E é sempre bom acordar com tanta classe. Por outro lado, não tão positivo pois a Luísa é de facto uma mulher repleta de charme,  na zona da restauração ouviu-se uma hora uma senhora chamar pela sua cria da seguinte forma: “Salvador, Salvador, venha cá!” – Dizia a progenitora ao Salva, como quem sai do rodízio de marisco da praia do Vale do Lobo envolvida numa canga Chanel beachware line. Aqui fica um abraço à pobre cria que, de repente, se deve ter visto no meio de criançada que já anda descalça desde que nasceu e que sabe perfeitamente distinguir relva de erva da boa. Está claro que o Boom Festival se tornou mais eclético, o que não é necessariamente mau, vá.

Obrigada à dupla que montou a nossa tenda

Ao contrário da maioria da população, resolvemos acampar num T2, como verdadeiros experts do camping que não somos. Acontece que, quando chegámos à Boomland pelas duas da manhã, uma fila de seis horas e uma grade de minis depois, exaustos e pouco ágeis, concluímos que o desafio imposto era bastante maior do que as nossas competências. Como se isso não bastasse, percebemos também que este T2 não tinha os alicerces em dia. Faltavam-lhe estacas, varas e afins, coisas que os “normais” dizem ser indispensáveis.

Como somos pessoas que carregam um bom Karma, fomos recebidos por três amigos já instalados e que, sem pedir nada em troca, apenas por serem pessoas amáveis e bondosas, decidiram ajudar-nos nesta missão de montar a nossa casa temporária.

Nesta performance de implementação de arquitetura de risco, ressalvo a dupla Andrés & Limitada, constituída naturalmente por dois Andrés, um mais alto, discreto e de voz calma e um outro mais excêntrico, que vestia uma camisa aberta, ao estilo oriundo de Varadero com laivos de barman de Cocktails and Dreams. Para meu espanto, ambos se revelaram mestres da arte de bem acampar e apareceram como dois xamãs no nosso caminho, naquele momento bastante obscuro. Pós-graduados em Gestão de Projeto para Camping in situ, e fora de situ, com um perfil de liderança extraoridinário, delegaram neste casal desorientado, tarefas que fizemos por concretizar em excelência. Ensinaram-me a montar varas partidas, enquanto os próprios in loco uniam brilhantemente elásticos lassos com nós improvisados. Quando julgava que nunca iria viver neste Tcheio de complicações, nasce das terras mais áridas um airoso palácio, ideal para umas férias a dois. Um milagre que quase me fez chorar. Aqui fica o meu Muito Obrigada Andrés 🙂

E para terminar, como não podia deixar de ser, obrigada às pessoas com quem estive quase sempre e com quem passei grandes momentos, vocês sabem que são ❤

PS: Usei esta foto porque foi das poucas que tirei ao espaço. Se este casal simpático quiser direitos de utilização por favor apite. ❤ By the way, nice glasses!

 

Love,

 

D.

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Diva e o Arrendamento em Lisboa.

A esta pessoa que quer alugar um estúdio na Penha de França com 36m2 a 800€ eu desejo:

– Que nunca tenha um único amigo que divida irmamente a conta do jantar, quando a mesa toda mamou digestivos e ele só bebeu Coca-Cola. Pelo contrário, desejo que se cerque daqueles abutres que ficam a contar quem comeu azeitonas e quem meteu o dedo no paté de sardinha, tudo para pouparem 1€.

– Que nunca encontre o seu tamanho nos Saldos, Blackfriday, ou em nenhum Outlet do mundo inteiro.  Desejo-lhe que arrote sempre 20€ por um básico da Zara.

– Que nunca pague por um vodka bem servido, que gaste 1000€ naquelas doses à Lux e que acabe por ir para casa, infeliz, sozinho e, pior do que tudo: SÓBRIO.

– Que seja perseguido pela senhora que está o dia todo à porta das Amoreiras a dizer  ininterruptamente: “Tem 20 cêntimos? Têm 20 cêntimos? Têm 20 cêntimos?” Não desejo isto a ninguém, acreditem. Preferia ser uma das pessoas retratadas no 1000 Ways to Die.

– Que nunca tenham para consigo a amabilidade de lhe oferecerem um cigarro, naquelas noites em que é mais difícil encontrar uma máquina de tabaco do que um elefante aos melos com um pinguim na pista. Esperem, isto é possível…

– Que, no lugar daquela maravilhosa nota de 10€ esquecida num dos bolsos de um casaco a cheirar a mofo, encontrem uma fatura da EDP. E com multa.

– Que todas as coisas na vida sejam assim, simples, bonitas e leves.

Vai trabalhar pá.

Love,

D.

Diva e a Amiga Colega.

Hoje tenho uma amiga que primeiro foi colega de trabalho. Mal a conheci percebi que fumava e, com um propósito oportunista, apreciei o potencial de companhia para as pausas. Era alta como eu e tinha uma mancha no lábio, tal como a minha, e no mesmo sítio. Curioso, pensei.

Depois senti que, no meio de alguma timidez, existia uma vontade sua de transformar as pequenas oportunidades em piadas. O ar com ela era leve, como procuro sempre em quem me rodeia. Fiquei atenta.

Um dia fomos almoçar para testar se esta relação que os colegas criam à “hora de almoço” podia resultar entre nós, e ela, por azar, não foi bem atendida. Sentiu-se desrespeitada, com razão, porque serviram a esplanada quase toda antes de si, e nem umas azeitonas lhe deixaram para forrar o estômago. Sem muitas demoras, deu o último golo da sua imperial, um par de berros (educados) ao empregado negligente e partiu de óculos de sol postos, deixando para trás um grupo de seguidores famintos que não tiveram a sua audácia. E foi assim que percebi que esta espécie de Diva da restauração podia ser minha amiga.

Mais tarde, contou-me que o seu pai era chef de cozinha e que, desde miúda, foi habituada a fazer avaliações criteriosas aos locais onde vai comer. No fundo, tornou-se mais exigente. Também é por esta influência que verbaliza termos com sauté para designar o que para mim é uma simples frigideira, e traz souflé de pescada para o almoço, dentro de um tupperware, mas com muito requinte. Ela gosta de comer e insiste amavelmente em partilhar comigo as melhores iguarias que traz, desde a lasanha feita pela avó, ao risoto incrível de cogumelos de autoria do pai. (a quem aproveito para agradecer). Eu trago duas vezes por semana salsichas de aves muito mal amanhadas com legumes e, portanto, valorizo uma refeição digna e sofisticada. Sabendo disso, ela alimenta-me com amizade.

Aos poucos, fui vendo também que tem um sentido apurado de estética, que gostamos das mesmas cores, tendências de trapos e que tem paciência para me acompanhar durante dias infinitos na procura de um casaco de inverno, como o último que só consegui comprar à vigésima vez em que fomos às Amoreiras. E na primeira loja onde entrámos 20 dias antes. Nada me ficava bem, ela compreendeu isso sem ansiedades.

Mais importante do que tudo, gostamos de contar histórias de Amor. Nossas, de amigos, sempre sem maldade, só mesmo pela partilha de novelas inspiradoras, e sem nomes. Nem interessam.

Apesar de ouvir músicas foleiras nos seus phones, que de vez em quando não resiste em cantarolar a meio do trabalho incriminando-se sem pudor, percebi que ela é muito mais do que a Rihanna que ouve.

Temos vindo a concluir, com alguma frustração, que a música não é de todo o nosso elo mais forte. Mas não tem mal. Ela ouve hip-hop, incluindo o tuga, o que eu acho quase inacreditável. Eu, no seu ponto de vista, gosto de música de hipsters. Não é inteiramente verdade mas compreendo que, perto do Valete, somos todos alternativos. Mesmo assim, ouço os hits que partilha comigo para lhe dar uma chance. E ela ouve os meus para me fazer a vontade.

A verdade é que, às tantas, com o passar do tempo, já podia gozar com ela e ela comigo. Já partilhávamos intimidades, segredos e até algumas lágrimas.

Podia ser uma história qualquer, sobre uma qualquer colega de trabalho que se transformou em amiga, está certo.

Mas esta é sobre a minha e eu gosto muito dela.

Love.
D.

Diva vai ao Bingo.

Andava há muito tempo para ir ao Bingo. Lembro-me de lá ter ido parar uma vez mas confesso que não guardei grande memória. Recordo-me apenas de ter bebido uns copos que me foram oferecendo, enquanto um amigo surtava completamente porque não ouvia os números que iam sendo ditados, dado ter perdido a conta às amêndoas cada vez mais amargas que bebera.

Agora, mais recentemente, fui viver a dita experiência em pleno. O meu querido parceiro no crime, e em muitas coisas mais, queria há muito iniciar-me nesta jogatana, tentando, para o efeito, aliciar-me com as sangrias  e os jantares grátis de incentivo ao jogo. Eu, fraca, acabei por ceder.

O escolhido foi o “Bingo Belenenses”. Situado estranhamente no Saldanha, e não em Belém, auto-intitula-se como a maior casa de jogo em Lisboa. E acredito que seja.

Assim que lá chegámos, fomos recebidos por um senhor muito bem parecido, de fato, que gentilmente se ofereceu para guardar os nossos casacos no bengaleiro. No hall de entrada, via-se uma máquina de tabaco, uma caixa multibanco e um sofá para aguardarmos enquanto não se podia entrar. Há regras nestas coisas mas também muitas mordomias para nos sacarem dinheiro com simpatia.

Assim que a nossa hora chegou, o dito mordomo abriu as portas e, no meu campo de visão, entraram dezenas de mesas redondas acompanhadas por uma nuvem de fumo, enquanto que, sobre um chão alcatifado, caminhavam elegantes empregados que empurravam velozmente carrinhos de bebidas coloridas em flutes. Calma, parece mais chique do que é. Uma coisa boa, nesta sala podemos fumar em cima dos velhotes moribundos que ninguém nos diz nada.

Mas bom, já sentados e a esfregar aos mãos, começaram a entregar-nos os cartões. Agarrei-me à caneta, e de repente, muito rapidamente, estava no meio de um jogo de Totobola em que a bola era eu. Inexperiente, não conseguia perceber mais de três números seguidos e a cada cruz que marcava, ficava tão nervosa que me esquecia de pelo menos dois. Foram três minutos de pânico sem ver luz neste enigma aleatório.

Conscientes de que tudo é uma questão de hábito, seguimos para mais uma ronda. Novo cartão em cima da mesa, caneta pública na boca, siga para Bingo. Mais que atenta nesta nova etapa, já a patrulhar a minha própria atuação como se estivesse no exame nacional de Matemática A, percebi que marcara o penúltimo número de uma linha. As minhas mãos trémulas começaram a transpirar, a minha boca a salivar, a minha pupila claramente a aumentar de excitação, quando o improvável, aconteceu:

Senhora Funcionária do Bingo ao microfone: 22. Dois e dois.

DIVA a dar tudo no jogo: “LINHA!” – Gritei bem alto, com o entusiasmo que só uma principiante consegue transmitir. E para lá de louca, olhei para o funcionário mais próximo de mim, na esperança que me correspondesse com felicitações. Mas não.

Empregado Elegante, abanando a mão: “Já foi menina! Só se faz linha uma vez!”- Em modo sussurro para não me humilhar mais do que eu própria havia feito.

Desiludida mas persistente, continuei sem pudor. Mas, antes disso, tirei três segundos de folga para olhar para o meu parceiro. Ligeiramente envergonhado pela minha precipitação, estava verde de ansiedade, sem conseguir focar-me nos olhos, enquanto organizava as moedas para a próxima dose. Ele que é um papa cigarros, dava apenas breves passas no seu Marlboro para não afetar a sua prestação.

Já novamente imersos naquele caos sonoro de números, havia sempre um cabrão que gritava “LINHA” antes de nós, e outro, um esterco ainda pior, que gritava BINGO! Sentimentos dignos de um psicopata começaram a afetar a minha alma habitualmente amigável. Já transpirava inveja e ódio pela testa. Estas vozes vencedoras, que naquele momento personificavam a felicidade e o sucesso, faziam-me dar murros na mesa e pontapés discretos na cadeira do lado. Atitude sem grande fair play, assumo.

Os cartões continuavam a surgir pelas mãos destes empregados maléficos como se estivéssemos a caminhar suavemente para o Inferno das probabilidades numéricas. Já em psicose, e a sofrer por antecipação, começámos a partilhar a sorte no mesmo cartão, como quem divide uma batata em tempos de fome e guerra, tudo pelo receio de não ouvirmos devidamente os números.

“Quatro olhos veem melhor do que dois” – dizia-me o meu mais que tudo, com cara de quem está a passar por uma ressaca de metadona. Eu acenava com a cabeça, numa espécie de sonambulismo induzido e riscava, riscava…

Foi preciso cerca de meia hora, e vinte euros, para realizarmos que o nosso estado de lucidez partia a cada bingo que os outros concretizavam. Estávamos tensos, cansados, mais pobres e, claramente, mais nervosos.

Não fomos feitos para esta neurose.

Partimos e dissemos um para o outro: “Nunca mais”.

Dois dias depois estávamos no Casino.

Love,

D

Diva e o Cabeção.

Hoje, no multibanco do Pingo Doce, a única caixa realmente perto de casa, a “estreia” de um filme já muito visto:

 “A pessoa séria que se cola ao multibanco para pagar contas, antes das 10h”.

Assim que chego à caixa automática, mais que lançada e de cartão na mão, vejo uma senhora de cabelo armado, com aquele digníssimo 4.5 a puxar para o cajú, já à frente da máquina e a sacar da sua pasta preta, de polipele refira-se, uma conta da EPAL.

“Calma, é cedo, ela só vai pagar uma conta, será breve, não te enerves” – Comentou o meu ser interior. Efetivamente estava com muita pressa e, já se sabe, tudo me irrita de manhã.

Cada vez mais colada à senhora, quase a respirar para o seu ouvido para que percebesse que não estava sozinha a brincar aos pagamentos, aguardei ansiosamente que terminasse de efetuar a sua operação. Enquanto isso, a minha visão captava cada gesto seu, cada movimento que fazia no ecrã, cada mudança sua quanto à posição de pernas. Na verdade, dei-me ao trabalho de captar a entidade e a referência que digitou, sendo que quase a ajudei na fase posterior de confirmação dos números. Estava seriamente a exercer pressão sobre aquele pobre ser. Talvez estivesse um pouco fora de mim, confesso.

Depois da sua missão concluída, água paga e banhos garantidos para um cabelo sempre sedoso, vejo o cartão desta grande querida a ser cuspido da máquina. Esfregando as mãos, dei um passinho à frente para agilizar o processo. Qual o meu espanto quando percebo que… acabara de ser enganada.

Falso alarme.

O Cabeção cajú voltou à carga e começou a enfiar o cartão, outra vez, cheia de ganas.

As suas mãos, apressadas mas repletas de subtileza, regressaram à digníssima pasta dos documentos, de onde saiu…

Uma conta da EDP.

A elegantíssima desconhecida, que em segundos já conseguia tirar o pior de mim, abanou a cabeça assim que percebeu o balúrdio que se escondia naquele envelope. Sacudiu a folha e percebia-se que dizia para si mesma: “Ai estes cabrões, outra vez” (desculpem a linguagem). Respirou fundo, ajustou os óculos e continuou o seu processo de boa pagadora.

Apesar de solidária com esta causa, especialmente nesta época em que deixo de comer para pagar os gastos do aquecedor, e de todos os meses me ocorrer barricar-me na EDP mais próxima, não conseguia evitar a raiva crescente em mim.

O Cabeção, por sua vez, continuava calmamente a digitar no teclado, como quem tem tempo de sobra,  completamente alheia à fila que criava atrás de si. Já parecia a dos bilhetes para o Boom Festival mas sem charros e cerveja. Ou seja, um processo de espera um pouco mais chato.

Já completamente exaurida, a morder-me e de queixo praticamente no seu ombro, resolvi começar a marchar no mesmo sítio. Não sei se conhecem esta técnica mas é muito eficaz. Precisam apenas de umas botas singelas, capazes de produzir um clássico som de andar senhoril. Acreditem, não há quem fique indiferente a tamanha sensação de irritação. Marchei, marchei, até que a croma se mancou.

Um pouco envergonhada, lá expulsou o cartão da máquina, virou-se, olhou-me timidamente nos olhos e proferiu baixinho:

– “Obrigada”.

– “Nem lhe vou responder.” – Disse eu, indignada, com cara de quem não passa um paninho nestas atitudes.

 

Bom dia Gente Cívica!

Love,

D.

Diva e o Bilhete para o Boom Festival 2018.

Há coisas irrefutavelmente importantes na vida. Para muitos, ir ao Boom Festival é uma delas.

Já não é novidade que, de dois em dois anos, se instala uma febre piscadélica que deixa a juventude que se preza sem noção de tempo e de espaço. Falamos de jovens famintos de uma semana de liberdade, e felicidade sem limites, capazes de cometerem verdadeiras loucuras para não perder o evento mais importante das suas vidas. Dramático, eu sei.

É certo que é um festival único, mas também é verdade que a organização, este ano, deve ter andado a consumir LSD antes de tempo. Está mais difícil arranjar um bilhete para o referido evento, do que entrar para a Maçonaria. Com cunha.

Fazendo um pequeno rewind, tudo começou com o esperado lançamento da plataforma de venda de bilhetes online. Os fiéis seguidores, já com peladas na cabeça próprias da ansiedade, depararam-se com uma patética experiência de compra, visto que a plataforma teve que ser encerrada pouco tempo depois de ter sido ativada. A organização, por sua vez,  alegou ter sofrido um ataque de hackers. Argumento válido mas, a meu ver, um pouco duvidoso. Todos reconhecemos no festival a perícia na conceção de WC´s sustentávels, ou na decoração de inspiração feng shui freak-chique, mas suspeito que possa ter as suas fraquezas programáticas. Aliás, convenhamos, os adeptos da Natureza, e do pé descalço, sempre tiveram relações conturbadas com a Tecnologia. Também me parece improvável que os Anonymous tenham largado o Daesh para se dedicar aos festivais de música Trance. Mas, tudo é possível.

No seguimento deste flop de vendas online, ficou tudo à espera que a plataforma regressasse à vida. E, a seu tempo, regressou. Num par de horas já se esgotava a primeira fase de vendas. Os mais sábios, e velozes, conseguiram comprar os seus bilhetes que, automaticamente publicaram no Facebook, como quem diz: “Aqui estão seus burros inúteis”. No fundo, a dirigirem-se a pessoas do mundo real que, como eu, se esquecem constantemente da pass do paypall, e que têm um pouco mais que fazer do que babar o teclado à espera da abertura das urnas. No fundo, sou um espécie de escroto para esta geração revolucionária que prefere uma autocaravana a um T2 na Lapa apesar de comprar tudo na ASOS. E com desconto.

Porém, nada perdido ainda, a odisseia continuou com a divulgação de uma rede de embaixadores, comunicando que estes terão bilhetes disponíveis a partir de dia 19 de dezembro, por ordem de chegada, comprovativo de morada e, já agora, 10 gotas de sangue de alguém amado e um punho de cabelos do filho primogénito.

Nesta lista, o que também achei deveras curioso, consta um embaixador particular que, generosamente, e também muito ingenuamente, disponibilizou o seu contacto telefónico no site.

Como me pareceu uma via mais direta, e eu valorizo um serviço ao cliente próximo e eficaz, liguei-lhe. Atendeu uma voz desesperada, como quem detém a responsabilidade de decifrar o código nazi em tempos de guerra. O pobre coitado revelou-me, em sofrimento, e possivelmente depois de ter tomado 3 Xanax, que em dois dias já lhe tinham ligado mais de 50 vezes. Apesar do estado pré- Júlio de Matos gritante, sugeriu-me que lhe ligasse no dia 19 de dezembro, o dia do Juízo Final. Também me deixou uma mensagem de esperança peculiar:

“Liga-me no dia e logo se vê”.  ❤

Com isto, resta-me dizer, obrigada Boom Festival por toda a atenção, carinho e dedicação que apresentam aos portugueses como vós, e lembrem-se que um dia também tiveram cartões Visa do IKEA e não American Express.

Com um Marketing destes, para ano estão a fazer frente à Coca-Cola no Natal.

Love,

D.

Diva e as Fotos na Night

Ser fotografada à noite e surgir digna nos mil álbuns que são partilhados no Facebook das festas tendência, é uma vantagem social que não toca a todas.

Confesso que também não me atingiu tamanha virtude. A materialização da minha imagem estática é, sem sombra de dúvidas, pouco benéfica para a minha reputação em movimento.

Mas bom, o tema de hoje não é a minha falta de fotogenia, não criei um blog para me humilhar. Pelo contrário.

Hoje, vamos responder a uma questão muito relevante para todas aquelas malucas, aspirantes a figuras públicas de relevo da noite lisboeta e arredores, que andam sempre à caça das suas carinhas larocas nestes álbuns.

Ora bem, a pergunta é:

Como se tornarem a Miss Fotogenia da Night de Lisboa?

É simples, eu ajudo:

A foto Clássica 

Sempre que virem o fotógrafo aproximar-se, fechem os olhos e levantem um braço. Carregada de conceito artístico e absolutamente intemporal, esta foto representa o maior clássico das fotos da noite de Lisboa. Ao mesmo tempo que propaga uma mensagem de liberdade, é um ângulo que protege do estrabismo, do olhar desorientado, muitas vezes característico do estilo de vida da protagonista. Simples, não? Braço ao alto, olhos fechadinhos, aconteça o que acontecer.

A foto da Gratidão

Falamos daquele enquadramento, gerado a partir da cabine do DJ, em que se desfoca todo o público, em prol de um corpo celeste que está a dar tudo na frontline. Todos nós já vimos uma foto assim. Aquela em que se sente a alma eletrizante da protagonista que, de braços no ar e a sorrir para cima, parece agradecer a chuva depois de meses de seca. Esta foto resulta sempre muito bem depois das 7h já que o sentimento de gratidão do alvo, por norma, vai aumentando progressivamente ao longo da noite. Ao contrário da Foto Clássica, esta é uma foto que ser quer de pestana aberta, sem medos.

A foto com “asjamigas”

É de senso comum que o estatuto de Miss Fotogenia da Night deverá andar lado a lado com o de Miss Simpatia da Night. Como tal, a eleita deve ter muitas amigas com quem tirar fotos interessantes. Um dos best-sellers  para esta categoria é o xoxinho emocionado entre duas night girls de coleira ao pescoço. Todos sabemos que a emoção da amizade é resultado da broa e que muito provavelmente não sabem o nome uma da outra pois costumam tratar-se por “querida”. Contudo, sem julgamentos, a foto funciona. É um facto. Go for it!

A foto da “que a sabe toda”.

Toda a gente sabe que o que mais fazemos quando estamos numa pista de dança, cheia de gente maluca e transpirada, com o som a furar-nos os ouvidos, é ficarmos paradas, de tronco frontal,  cara ligeiramente inclinada, olhar baixo dirigido ao nada e pulso virado para cima, pois é lá que consta o triângulo tatuado. Não, não estamos  a falar com ninguém, não estamos a olhar para ninguém, estamos só a ser lindas na pista. Esta foto é digna de uma profissional que basicamente só vai a estas festas para caçar uma foto de perfil sem grão.

Mais importante que tudo minhas queridas, é tentar não aparecer em todos os álbuns ao mesmo tempo. Não é digno, não é bom para a vossa imagem, ninguém vos paga para isso.

Lutem pelos vossos direitos.
Love,
D.