Diva e a Amiga Colega.

Hoje tenho uma amiga que primeiro foi colega de trabalho. Mal a conheci percebi que fumava e, com um propósito oportunista, apreciei o potencial de companhia para as pausas. Era alta como eu e tinha uma mancha no lábio, tal como a minha, e no mesmo sítio. Curioso, pensei.

Depois senti que, no meio de alguma timidez, existia uma vontade sua de transformar as pequenas oportunidades em piadas. O ar com ela era leve, como procuro sempre em quem me rodeia. Fiquei atenta.

Um dia fomos almoçar para testar se esta relação que os colegas criam à “hora de almoço” podia resultar entre nós, e ela, por azar, não foi bem atendida. Sentiu-se desrespeitada, com razão, porque serviram a esplanada quase toda antes de si, e nem umas azeitonas lhe deixaram para forrar o estômago. Sem muitas demoras, deu o último golo da sua imperial, um par de berros (educados) ao empregado negligente e partiu de óculos de sol postos, deixando para trás um grupo de seguidores famintos que não tiveram a sua audácia. E foi assim que percebi que esta espécie de Diva da restauração podia ser minha amiga.

Mais tarde, contou-me que o seu pai era chef de cozinha e que, desde miúda, foi habituada a fazer avaliações criteriosas aos locais onde vai comer. No fundo, tornou-se mais exigente. Também é por esta influência que verbaliza termos com sauté para designar o que para mim é uma simples frigideira, e traz souflé de pescada para o almoço, dentro de um tupperware, mas com muito requinte. Ela gosta de comer e insiste amavelmente em partilhar comigo as melhores iguarias que traz, desde a lasanha feita pela avó, ao risoto incrível de cogumelos de autoria do pai. (a quem aproveito para agradecer). Eu trago duas vezes por semana salsichas de aves muito mal amanhadas com legumes e, portanto, valorizo uma refeição digna e sofisticada. Sabendo disso, ela alimenta-me com amizade.

Aos poucos, fui vendo também que tem um sentido apurado de estética, que gostamos das mesmas cores, tendências de trapos e que tem paciência para me acompanhar durante dias infinitos na procura de um casaco de inverno, como o último que só consegui comprar à vigésima vez em que fomos às Amoreiras. E na primeira loja onde entrámos 20 dias antes. Nada me ficava bem, ela compreendeu isso sem ansiedades.

Mais importante do que tudo, gostamos de contar histórias de Amor. Nossas, de amigos, sempre sem maldade, só mesmo pela partilha de novelas inspiradoras, e sem nomes. Nem interessam.

Apesar de ouvir músicas foleiras nos seus phones, que de vez em quando não resiste em cantarolar a meio do trabalho incriminando-se sem pudor, percebi que ela é muito mais do que a Rihanna que ouve.

Temos vindo a concluir, com alguma frustração, que a música não é de todo o nosso elo mais forte. Mas não tem mal. Ela ouve hip-hop, incluindo o tuga, o que eu acho quase inacreditável. Eu, no seu ponto de vista, gosto de música de hipsters. Não é inteiramente verdade mas compreendo que, perto do Valete, somos todos alternativos. Mesmo assim, ouço os hits que partilha comigo para lhe dar uma chance. E ela ouve os meus para me fazer a vontade.

A verdade é que, às tantas, com o passar do tempo, já podia gozar com ela e ela comigo. Já partilhávamos intimidades, segredos e até algumas lágrimas.

Podia ser uma história qualquer, sobre uma qualquer colega de trabalho que se transformou em amiga, está certo.

Mas esta é sobre a minha e eu gosto muito dela.

Love.
D.

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Diva vai ao Bingo.

Andava há muito tempo para ir ao Bingo. Lembro-me de lá ter ido parar uma vez mas confesso que não guardei grande memória. Recordo-me apenas de ter bebido uns copos que me foram oferecendo, enquanto um amigo surtava completamente porque não ouvia os números que iam sendo ditados, dado ter perdido a conta às amêndoas cada vez mais amargas que bebera.

Agora, mais recentemente, fui viver a dita experiência em pleno. O meu querido parceiro no crime, e em muitas coisas mais, queria há muito iniciar-me nesta jogatana, tentando, para o efeito, aliciar-me com as sangrias  e os jantares grátis de incentivo ao jogo. Eu, fraca, acabei por ceder.

O escolhido foi o “Bingo Belenenses”. Situado estranhamente no Saldanha, e não em Belém, auto-intitula-se como a maior casa de jogo em Lisboa. E acredito que seja.

Assim que lá chegámos, fomos recebidos por um senhor muito bem parecido, de fato, que gentilmente se ofereceu para guardar os nossos casacos no bengaleiro. No hall de entrada, via-se uma máquina de tabaco, uma caixa multibanco e um sofá para aguardarmos enquanto não se podia entrar. Há regras nestas coisas mas também muitas mordomias para nos sacarem dinheiro com simpatia.

Assim que a nossa hora chegou, o dito mordomo abriu as portas e, no meu campo de visão, entraram dezenas de mesas redondas acompanhadas por uma nuvem de fumo, enquanto que, sobre um chão alcatifado, caminhavam elegantes empregados que empurravam velozmente carrinhos de bebidas coloridas em flutes. Calma, parece mais chique do que é. Uma coisa boa, nesta sala podemos fumar em cima dos velhotes moribundos que ninguém nos diz nada.

Mas bom, já sentados e a esfregar aos mãos, começaram a entregar-nos os cartões. Agarrei-me à caneta, e de repente, muito rapidamente, estava no meio de um jogo de Totobola em que a bola era eu. Inexperiente, não conseguia perceber mais de três números seguidos e a cada cruz que marcava, ficava tão nervosa que me esquecia de pelo menos dois. Foram três minutos de pânico sem ver luz neste enigma aleatório.

Conscientes de que tudo é uma questão de hábito, seguimos para mais uma ronda. Novo cartão em cima da mesa, caneta pública na boca, siga para Bingo. Mais que atenta nesta nova etapa, já a patrulhar a minha própria atuação como se estivesse no exame nacional de Matemática A, percebi que marcara o penúltimo número de uma linha. As minhas mãos trémulas começaram a transpirar, a minha boca a salivar, a minha pupila claramente a aumentar de excitação, quando o improvável, aconteceu:

Senhora Funcionária do Bingo ao microfone: 22. Dois e dois.

DIVA a dar tudo no jogo: “LINHA!” – Gritei bem alto, com o entusiasmo que só uma principiante consegue transmitir. E para lá de louca, olhei para o funcionário mais próximo de mim, na esperança que me correspondesse com felicitações. Mas não.

Empregado Elegante, abanando a mão: “Já foi menina! Só se faz linha uma vez!”- Em modo sussurro para não me humilhar mais do que eu própria havia feito.

Desiludida mas persistente, continuei sem pudor. Mas, antes disso, tirei três segundos de folga para olhar para o meu parceiro. Ligeiramente envergonhado pela minha precipitação, estava verde de ansiedade, sem conseguir focar-me nos olhos, enquanto organizava as moedas para a próxima dose. Ele que é um papa cigarros, dava apenas breves passas no seu Marlboro para não afetar a sua prestação.

Já novamente imersos naquele caos sonoro de números, havia sempre um cabrão que gritava “LINHA” antes de nós, e outro, um esterco ainda pior, que gritava BINGO! Sentimentos dignos de um psicopata começaram a afetar a minha alma habitualmente amigável. Já transpirava inveja e ódio pela testa. Estas vozes vencedoras, que naquele momento personificavam a felicidade e o sucesso, faziam-me dar murros na mesa e pontapés discretos na cadeira do lado. Atitude sem grande fair play, assumo.

Os cartões continuavam a surgir pelas mãos destes empregados maléficos como se estivéssemos a caminhar suavemente para o Inferno das probabilidades numéricas. Já em psicose, e a sofrer por antecipação, começámos a partilhar a sorte no mesmo cartão, como quem divide uma batata em tempos de fome e guerra, tudo pelo receio de não ouvirmos devidamente os números.

“Quatro olhos veem melhor do que dois” – dizia-me o meu mais que tudo, com cara de quem está a passar por uma ressaca de metadona. Eu acenava com a cabeça, numa espécie de sonambulismo induzido e riscava, riscava…

Foi preciso cerca de meia hora, e vinte euros, para realizarmos que o nosso estado de lucidez partia a cada bingo que os outros concretizavam. Estávamos tensos, cansados, mais pobres e, claramente, mais nervosos.

Não fomos feitos para esta neurose.

Partimos e dissemos um para o outro: “Nunca mais”.

Dois dias depois estávamos no Casino.

Love,

D

Diva e o Cabeção.

Hoje, no multibanco do Pingo Doce, a única caixa realmente perto de casa, a “estreia” de um filme já muito visto:

 “A pessoa séria que se cola ao multibanco para pagar contas, antes das 10h”.

Assim que chego à caixa automática, mais que lançada e de cartão na mão, vejo uma senhora de cabelo armado, com aquele digníssimo 4.5 a puxar para o cajú, já à frente da máquina e a sacar da sua pasta preta, de polipele refira-se, uma conta da EPAL.

“Calma, é cedo, ela só vai pagar uma conta, será breve, não te enerves” – Comentou o meu ser interior. Efetivamente estava com muita pressa e, já se sabe, tudo me irrita de manhã.

Cada vez mais colada à senhora, quase a respirar para o seu ouvido para que percebesse que não estava sozinha a brincar aos pagamentos, aguardei ansiosamente que terminasse de efetuar a sua operação. Enquanto isso, a minha visão captava cada gesto seu, cada movimento que fazia no ecrã, cada mudança sua quanto à posição de pernas. Na verdade, dei-me ao trabalho de captar a entidade e a referência que digitou, sendo que quase a ajudei na fase posterior de confirmação dos números. Estava seriamente a exercer pressão sobre aquele pobre ser. Talvez estivesse um pouco fora de mim, confesso.

Depois da sua missão concluída, água paga e banhos garantidos para um cabelo sempre sedoso, vejo o cartão desta grande querida a ser cuspido da máquina. Esfregando as mãos, dei um passinho à frente para agilizar o processo. Qual o meu espanto quando percebo que… acabara de ser enganada.

Falso alarme.

O Cabeção cajú voltou à carga e começou a enfiar o cartão, outra vez, cheia de ganas.

As suas mãos, apressadas mas repletas de subtileza, regressaram à digníssima pasta dos documentos, de onde saiu…

Uma conta da EDP.

A elegantíssima desconhecida, que em segundos já conseguia tirar o pior de mim, abanou a cabeça assim que percebeu o balúrdio que se escondia naquele envelope. Sacudiu a folha e percebia-se que dizia para si mesma: “Ai estes cabrões, outra vez” (desculpem a linguagem). Respirou fundo, ajustou os óculos e continuou o seu processo de boa pagadora.

Apesar de solidária com esta causa, especialmente nesta época em que deixo de comer para pagar os gastos do aquecedor, e de todos os meses me ocorrer barricar-me na EDP mais próxima, não conseguia evitar a raiva crescente em mim.

O Cabeção, por sua vez, continuava calmamente a digitar no teclado, como quem tem tempo de sobra,  completamente alheia à fila que criava atrás de si. Já parecia a dos bilhetes para o Boom Festival mas sem charros e cerveja. Ou seja, um processo de espera um pouco mais chato.

Já completamente exaurida, a morder-me e de queixo praticamente no seu ombro, resolvi começar a marchar no mesmo sítio. Não sei se conhecem esta técnica mas é muito eficaz. Precisam apenas de umas botas singelas, capazes de produzir um clássico som de andar senhoril. Acreditem, não há quem fique indiferente a tamanha sensação de irritação. Marchei, marchei, até que a croma se mancou.

Um pouco envergonhada, lá expulsou o cartão da máquina, virou-se, olhou-me timidamente nos olhos e proferiu baixinho:

– “Obrigada”.

– “Nem lhe vou responder.” – Disse eu, indignada, com cara de quem não passa um paninho nestas atitudes.

 

Bom dia Gente Cívica!

Love,

D.

Diva e o Bilhete para o Boom Festival 2018.

Há coisas irrefutavelmente importantes na vida. Para muitos, ir ao Boom Festival é uma delas.

Já não é novidade que, de dois em dois anos, se instala uma febre piscadélica que deixa a juventude que se preza sem noção de tempo e de espaço. Falamos de jovens famintos de uma semana de liberdade, e felicidade sem limites, capazes de cometerem verdadeiras loucuras para não perder o evento mais importante das suas vidas. Dramático, eu sei.

É certo que é um festival único, mas também é verdade que a organização, este ano, deve ter andado a consumir LSD antes de tempo. Está mais difícil arranjar um bilhete para o referido evento, do que entrar para a Maçonaria. Com cunha.

Fazendo um pequeno rewind, tudo começou com o esperado lançamento da plataforma de venda de bilhetes online. Os fiéis seguidores, já com peladas na cabeça próprias da ansiedade, depararam-se com uma patética experiência de compra, visto que a plataforma teve que ser encerrada pouco tempo depois de ter sido ativada. A organização, por sua vez,  alegou ter sofrido um ataque de hackers. Argumento válido mas, a meu ver, um pouco duvidoso. Todos reconhecemos no festival a perícia na conceção de WC´s sustentávels, ou na decoração de inspiração feng shui freak-chique, mas suspeito que possa ter as suas fraquezas programáticas. Aliás, convenhamos, os adeptos da Natureza, e do pé descalço, sempre tiveram relações conturbadas com a Tecnologia. Também me parece improvável que os Anonymous tenham largado o Daesh para se dedicar aos festivais de música Trance. Mas, tudo é possível.

No seguimento deste flop de vendas online, ficou tudo à espera que a plataforma regressasse à vida. E, a seu tempo, regressou. Num par de horas já se esgotava a primeira fase de vendas. Os mais sábios, e velozes, conseguiram comprar os seus bilhetes que, automaticamente publicaram no Facebook, como quem diz: “Aqui estão seus burros inúteis”. No fundo, a dirigirem-se a pessoas do mundo real que, como eu, se esquecem constantemente da pass do paypall, e que têm um pouco mais que fazer do que babar o teclado à espera da abertura das urnas. No fundo, sou um espécie de escroto para esta geração revolucionária que prefere uma autocaravana a um T2 na Lapa apesar de comprar tudo na ASOS. E com desconto.

Porém, nada perdido ainda, a odisseia continuou com a divulgação de uma rede de embaixadores, comunicando que estes terão bilhetes disponíveis a partir de dia 19 de dezembro, por ordem de chegada, comprovativo de morada e, já agora, 10 gotas de sangue de alguém amado e um punho de cabelos do filho primogénito.

Nesta lista, o que também achei deveras curioso, consta um embaixador particular que, generosamente, e também muito ingenuamente, disponibilizou o seu contacto telefónico no site.

Como me pareceu uma via mais direta, e eu valorizo um serviço ao cliente próximo e eficaz, liguei-lhe. Atendeu uma voz desesperada, como quem detém a responsabilidade de decifrar o código nazi em tempos de guerra. O pobre coitado revelou-me, em sofrimento, e possivelmente depois de ter tomado 3 Xanax, que em dois dias já lhe tinham ligado mais de 50 vezes. Apesar do estado pré- Júlio de Matos gritante, sugeriu-me que lhe ligasse no dia 19 de dezembro, o dia do Juízo Final. Também me deixou uma mensagem de esperança peculiar:

“Liga-me no dia e logo se vê”.  ❤

Com isto, resta-me dizer, obrigada Boom Festival por toda a atenção, carinho e dedicação que apresentam aos portugueses como vós, e lembrem-se que um dia também tiveram cartões Visa do IKEA e não American Express.

Com um Marketing destes, para ano estão a fazer frente à Coca-Cola no Natal.

Love,

D.

Diva e as Fotos na Night

Ser fotografada à noite e surgir digna nos mil álbuns que são partilhados no Facebook das festas tendência, é uma vantagem social que não toca a todas.

Confesso que também não me atingiu tamanha virtude. A materialização da minha imagem estática é, sem sombra de dúvidas, pouco benéfica para a minha reputação em movimento.

Mas bom, o tema de hoje não é a minha falta de fotogenia, não criei um blog para me humilhar. Pelo contrário.

Hoje, vamos responder a uma questão muito relevante para todas aquelas malucas, aspirantes a figuras públicas de relevo da noite lisboeta e arredores, que andam sempre à caça das suas carinhas larocas nestes álbuns.

Ora bem, a pergunta é:

Como se tornarem a Miss Fotogenia da Night de Lisboa?

É simples, eu ajudo:

A foto Clássica 

Sempre que virem o fotógrafo aproximar-se, fechem os olhos e levantem um braço. Carregada de conceito artístico e absolutamente intemporal, esta foto representa o maior clássico das fotos da noite de Lisboa. Ao mesmo tempo que propaga uma mensagem de liberdade, é um ângulo que protege do estrabismo, do olhar desorientado, muitas vezes característico do estilo de vida da protagonista. Simples, não? Braço ao alto, olhos fechadinhos, aconteça o que acontecer.

A foto da Gratidão

Falamos daquele enquadramento, gerado a partir da cabine do DJ, em que se desfoca todo o público, em prol de um corpo celeste que está a dar tudo na frontline. Todos nós já vimos uma foto assim. Aquela em que se sente a alma eletrizante da protagonista que, de braços no ar e a sorrir para cima, parece agradecer a chuva depois de meses de seca. Esta foto resulta sempre muito bem depois das 7h já que o sentimento de gratidão do alvo, por norma, vai aumentando progressivamente ao longo da noite. Ao contrário da Foto Clássica, esta é uma foto que ser quer de pestana aberta, sem medos.

A foto com “asjamigas”

É de senso comum que o estatuto de Miss Fotogenia da Night deverá andar lado a lado com o de Miss Simpatia da Night. Como tal, a eleita deve ter muitas amigas com quem tirar fotos interessantes. Um dos best-sellers  para esta categoria é o xoxinho emocionado entre duas night girls de coleira ao pescoço. Todos sabemos que a emoção da amizade é resultado da broa e que muito provavelmente não sabem o nome uma da outra pois costumam tratar-se por “querida”. Contudo, sem julgamentos, a foto funciona. É um facto. Go for it!

A foto da “que a sabe toda”.

Toda a gente sabe que o que mais fazemos quando estamos numa pista de dança, cheia de gente maluca e transpirada, com o som a furar-nos os ouvidos, é ficarmos paradas, de tronco frontal,  cara ligeiramente inclinada, olhar baixo dirigido ao nada e pulso virado para cima, pois é lá que consta o triângulo tatuado. Não, não estamos  a falar com ninguém, não estamos a olhar para ninguém, estamos só a ser lindas na pista. Esta foto é digna de uma profissional que basicamente só vai a estas festas para caçar uma foto de perfil sem grão.

Mais importante que tudo minhas queridas, é tentar não aparecer em todos os álbuns ao mesmo tempo. Não é digno, não é bom para a vossa imagem, ninguém vos paga para isso.

Lutem pelos vossos direitos.
Love,
D.

Diva avalia Corredores

Esta é a altura do ano em que vemos tudo o que é gorducho a correr ao relento, para chegar ao mês de agosto com menos meio quilo no bucho. É uma meta como outra qualquer, cada um tem a sua, e eu tenho muita consideração por pessoas que traçam objetivos na vida. #semjulgamentos.

Contudo, ao ver-me rodeada por amantes desta modalidade, decidi pensar um pouco mais profundamente sobre estilos, e formas, de exercitar o corpo a toda a velocidade.

Segue, portanto, a minha avaliação:

. O Corredor que se prepara para o Fim do Mundo.

E vai com a tralha toda atrás para uma corrida que todos sabemos que não vai durar mais do que 20 minutos. Ele leva mochila, ele vai de água colada à perna, telemóvel pregado ao pulso, headphones na cabeça e ainda, se estiver muito calor, uma toalha húmida à cintura para refrescar. Este indivíduo carrega tanta merda às costas que mais valia ir de Tuc-Tuc, e ir abanando os braços, para exercitar qualquer coisa. Coragem!

. O Corredor que pensa que vai para o Ironman. (a prova mais difícil de todos os tempos)

Esta é a espécie de corredor com atitude feroz e invencível, que faz crer ao Universo que corre há anos e com mestria. Na verdade, faz esta coisa de mexer o corpo todo, ao mesmo tempo, uma vez de 2 em 2 meses. Como a frequência de exercício é pouca, a pica naturalmente é extrema. Por esse motivo, anda pela cidade armado em atleta de triathlon sempre que se lembra de encarnar o desportista. Ele sobe e desce escadas, salta muros, anda de gatas pelos viadutos e, de cara raivosa, atravessa estradas sem parar no semáforo vermelho. Vida bimensal ao limite.

. O Corredor Hipster 

Todos nós sabemos que a Nike e a Adidas, por exemplo, um dia pensaram que seria interessante criar uns ténis que fossem capazes de suportar o corpinho enquanto este está em esforço, a praticar desporto. Questões como controlo de impacto, suporte à postura e até mesmo conforto, devem ter sido alguns requisitos para a criação dos ténis de corrida. Digo eu. Pois bem, que interessa isto para um hipster, meus amores? N-A-D-A. Hipster que se valha, corre com Vans, Superga, Sanjo. Grande bem-haja para vós meus queridos e um grande welcome hérnias!

O Corredor Sofrido

É o tal que ainda agora saiu de casa e já está a transpirar do buço. Depois de 5 minutos a correr, já se nota na cara do pobre coitado que preferia beber 1 litro detergente, a terminar a missão a que se propôs. Persistente, a pensar no meio quilo que deve perder, continua rumo ao pódio, mas sem Norte. Anda por aí aos S´s contra tudo e todos. Se por acaso o encontramos, com aquele ar desorientado, perto de uma estação de autocarros, somos gajos para mandar parar o 746, acreditando que é essa a sua vontade. Mas desenganem-se. Ele não corre para a Carris, ele corre pela Carris, por nós, pelo Mundo. Por quem o ajudar a acabar com todo aquele sofrimento.

. O Corredor Gazela

Bom, chegámos ao único cromo que de facto corre decentemente. E nota-se bem. Expressão relaxada, braços firmes, bela passada, temos corredor profissional de street. Não perde tempo com merdices, nem mesmo para matar a sede, e veste roupa e calçado apropriado para o efeito. Questão relevante: anda por aí a pavonear-se pelo meio da cidade, entre zonas urbanas, claramente de passeio, só para meter inveja a quem ainda não meteu o cú no ginásio este ano. Informo a esta gente presunçosa que a Cidade Universitária está muito bonita, o Campo Grande cada vez mais fresco e o Estádio Nacional, um luxo! Dá para desopilarem?

. O Corredor de Praia

Não corre o ano inteiro, só come toucinho mas quando chega à praia, em vez de dar uns mergulhos, apanhar sol e relaxar, vai correr à beira-mar. Só porque sim. Cenas.

E com isto, espero ver-vos todos correr para a fantástica e maravilhosa festa LGBT do Divas em Apuros no Fontória, já amanhã, sábado, dia 24!! ❤

Love,

D.

Diva regressa ao Ginásio.

Percebi que voltar ao ginásio, depois de meses e meses de ausência, é mais difícil do que parir um bebé de 7kg sem epidural. Tudo começa com o processo de decisão anterior ao regresso, que se agenda com alguma antecedência mental. Sequência bastante mais complexa do que parece, e que se inicia com um momento meditativo em que ponderamos tudo e mais um par de botas. É uma espécie de processo químico que se inaugura com: “E se para a semana fosse ao ginásio?” seguido por um: “Ah mas a Rita queria tanto estar comigo e há quase um ano que não jantamos só as duas” ou “Não era a minha avó que precisava de ajuda para mudar as cortinas das janelas?!” e daí em diante. No fundo, quando decidimos ir ao ginásio, surgem todos os tormentos do nosso passado. O que significa basicamente que, se me dessem a escolher, bebia 2 litros de óleo de fígado de bacalhau para não ter que subir a uma elíptica.

Depois de uma intensa batalha interior, acabei por decidir que no dia seguinte não tinha hipótese, ia mesmo treinar. E lá fui.

Cheguei de cabeça erguida, como quem enfrenta o primeiro dia de escola e,  já no balneário, percebi que tinha uma nódoa gigante mesmo na parte da frente da t-shirt. Já não me bastava estar mais gorda, ainda tinha que regressar suja. Irritada, estive muito perto de me aproveitar desta motivação higiénica para me convencer de que podia ir para casa. Mas não. Continuei forte.

Entrei pelo salão adentro e lá estavam as mesmas pessoas de sempre. O bimbo da crista que grita entre séries, a bixa tatuada que dá tudo no step, e que me aborrece profundamente porque fica lá cerca de uma hora como se fosse o único ser humano que precisa de trabalhar os glúteos, a miúda que até é gira mas que ficou viciada em proteína e agora carrega umas costas maiores que as do Phelps, e os gordos do costume que, coitados, ainda não perceberam que exercício com McDonald´s é só desperdício de energia.

Já sentada na bicicleta, percebo que lá ao fundo está o meu “Fã do Fitness”. Basicamente todas temos um. Faz parte, não sejam falsas. Os fãs do fitness são aqueles que aproveitam o treino para dar uma perninha no engate. São os tais que sorriem para nós, que utilizam sempre as máquinas que se encontram ao nosso lado e que nos fazem olhinhos pelo espelho.

Normalmente são gordos e ressabiados mas o meu até é elegante. Tem pouco mais de 40 anos e está em boa forma. Não sendo o meu estilo, perdão, até posso dizer que tenho um fã de luxo. Assim que me viu, fez aquela cara de surpresa, como quem não me via há anos. Claro que não tive outra hipótese se não soltar um olhar de quem esteve ausente por andar muito ocupada. A comer e a beber, claro. Já a minha expressão corporal, agora com mais 5 kgs, transmitiu um tímido “olá” pouco acentuado para o músculo do adeus não balançar demasiado, enquanto baixei a cabeça envergonhada, e claramente, desiludida comigo mesma.

Enquanto pedalava o mais que conseguia, de olhos focados num qualquer desfile que passava nas televisões da sala, quase a babar de raiva para as cabras das manequins que nos possuem inveja,  e a transpirar como uma verdadeira suína, percebo que, colada a mim, está uma gorda “a dar à perna” 4 níveis acima do meu. Eu estava no nível 3, ela no 6. Foi aqui que rebentou a bolha. Até a obesa estava em melhor forma que eu. Assim que reparei nesta ousadia, saltei imediatamente da bicicleta para a passadeira. Escolhi, armada em sabichona, aquela mesmo ao lado de uma velhota, para ninguém reparar que eu não corro. Ando rápido, com recurso a movimentos de corredor, o que é quase igual. Se a Rosa Mota conhecesse este truque, nunca se teria cansado tanto. Mas até a velha corria mais que eu. Mas como?!

Já em desespero, meti-me na fila para fazer um pouco de step mas lá estava a bixa há mais de 40 minutos, sem vontade de sair, com um rabo que mete inveja à J.Lo e a rir-se na cara das inimigas. Desisti.

Sem margem para fazer algo do princípio ao fim com o mínimo de dignidade, acabei por estender um colchão no chão para alongar por todos os exercícios que não fiz. Depois do estica perna, encolhe perna, mais para a esquerda, mais para a direita, concluí que a sala de treino não tinha lugar para uma Diva como eu e, como tal, resolvi enfiar um fato de banho que tenho desde o 9º ano (que detém algumas transparências próprias da idade) e acabei por seguir rumo à piscina.

Fiz 4 piscinas de costas, para aliviar o reumático, e quando me dei conta já estava a fazer olhinhos ao jacuzzi. Ali sim, ia ser feliz.

Meia horinha depois de permancer mergulhada naquelas fantásticas bolhas aromáticas foi o suficiente para me convencer de que até não fizera mal em ir.

Vá lá…

Love,

D.