Divas e o Serviço Nacional de Saúde – Parte I

Olá queridas

Partilhei convosco um artigo sobre como ganhar uns trocos extra, tudo porque me senti deveras pobre. Hoje voltei a passar por um momento idêntico. Mas porquê, perguntam vocês?

Porque tive que ir ao centro de saúde dos Anjos. Está explicado?

Acreditem, a realidade de quem tem que usufruir do sistema nacional de saúde é muito triste. Assim como esta história que venho partilhar convosco. E não é ficção. Incrivelmente.

Mudei de emprego recentemente e fiquei sem o seguro de saúde ao qual tinha direito. Dei por mim ligeiramente doente e a precisar de ir ao médico. Como não é nada de grave, estive estas duas últimas semanas a tentar comparecer ao centro de saúde dos Anjos antes das 8h. Mas todos os dias de manhã me deparei com o fracasso de não conseguir arredar o cú da cama. Para mim é quase impossível acordar às 13h, quanto mais às 7h. Mas bom, hoje finalmente consegui.

Apanhei um táxi e dirigi-me ao spot favorito da velhada aqui da linha verde. Assim que parei frente ao centro, percebi que ainda estava fechado e que à porta já havia uma fila gigante, além de um frio de rachar. Parecia uma cena da lista de Schindler mas com gente ainda mais feia e mal vestida. E mais gordas, naturalmente.

Conclusão, às 7h40 da manhã estava eu a bater dente, lado a lado com os coitadinhos. Já resignada à minha realidade, comecei a observar a fauna.

À minha frente, estava a cabeça mais oleosa de 2014. Pertencia a uma senhora estrábica, com cerca de 150 kgs, que falava brasileiro. Perguntou-me a que horas começavam as consultas, como se eu fosse habitué. E melhor, como se eu soubesse alguma coisa, sobre o que quer que fosse, às 7h40 da manhã. Nem o meu nome todo, querida.

À frente desta amável senhora, estava o 4 olhos. Ser estranho e perturbador, não tinha um dentinho que contasse a história e trazia uns óculos, estilo fundo de garrafa, que lhe acresciam mais 2 olhos. Calçava uns Nike vintage, aí de 1981, e trazia uma malinha de cortiça, à tira colo.  Esta criatura embicou comigo. Teve a ousadia de se afastar do seu  terceiro lugar na fila para não desgrudar os seus maléficos 4 olhos de cima de mim. Estava realmente incrédulo com a minha beleza. Até o compreendo, vá.

Enfim, lá estávamos nós congelados em fila indiana, quando finalmente às 8h em ponto se abrem as portas da Mansão.

O segurança, de ego cheio e senhas na mão, começa a distribuir os números. A mim calhou-me o 49. Não, não é o meu número da sorte, está visto.

Já numerada, quase de estrela ao peito, subo para a sala de espera da Casa Abandonada.

Aqui, encontro uma fantástica área com cerca de 35m2 a cair de podre. Sento-me semi tímida e  ainda ao longe, avisto uma senhora de turbante preto e Skechers cor-de-rosa choque. Do calçado Guimarães, claramente. Percebi de imediato que era uma Diva mestre em Xanax. Muito relaxada, a referida senhora senta-se num dos lugares da frente e começa a cantarolar o místico Cavaleiro Andante do falecido Beto. Enquanto isto, e do meu lado esquerdo, uma velha com tuberculose em grau avançado começa a acompanhar o vocal com a sua tosse convulsiva. Bonito de se ver e ouvir.

Ainda na sala de espera, e ao meu lado claro, surge o meu apaixonado, o 4 olhos. De queixo para a frente a mostrar a sua ausência de dentadura, olhava fixamente para mim. Comecei a lançar-lhe ares de Diva Enraivecida mas o senhor insistia em contemplar-me. Subitamente começa uma incrível sinfonia de tosse entre a velha, que antes acompanhava a Cavaleira Andante, e a Miss Cabelos Pantene Óleo Sedoso 2014. O ambiente estava melhor que nunca. Tinha que me por a andar.

Já com um pé fora da sala da tortura, ouço: “49!”  E lá fui eu desenfreada.

Aproximo-me do senhor do guichet, e apercebo-me que já me cruzei  com ele várias vezes no Finalmente.

Ele meigamente, sorri e diz-me:

– “Diva, a sua médica já está cheia…”

– “Mas eu cheguei tão cedo, como é possível?!” – Rematei eu, indignada.

– “Querida, esta bitch só atende 3 pessoas por dia nas urgências”- Diz, amoroso. (Acreditem se quiserem.)

Entretanto, este aspirante a Débora de Cristal ainda sugeriu que fosse falar com a médica para que excecionalmente me atendesse. E assim fiz.

A cabra não me quis atender e descartou-me como lixo. Bati-lhe com a porta no focinho e fui à minha vida.

Ainda encontrei o 4 olhos à saída, a fumar um cigarro. Coitado, também tinha ficado sem consulta porque saiu da fila para me mirar.

Parte boa?

Às 9h estava a fazer um seguro de saúde.

Como acordei cedo ainda fui enfardar o Pequeno Almoço da Padaria Portuguesa antes de picar o ponto. 2,50 por um croissant, sumo de laranja e café. Luxo.

Love,

D.

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