Diva e Jean Michel Basqueiro.

Por volta das 4h30 da manhã ouvi um som estranho, como se tivesse obras em casa. Saí da cama, vesti o robe, e lá fui eu em busca do barulho. Vinha da marquise.

A luz da lua batia nas minhas telas japonesas, compradas naquela loja sueca de luxo que ninguém conhece, o que me permitia ver uma silhueta louca e dançante, ao som das trombetas irritantes de Miles Davis. Desde que me conheço que odeio a sonoridade deste cromo do jazz e, sempre que digo isto, alguém quase me esgana. Mas é verídico, há poucas coisas mais que me deixam neste estado de depressão.

Aproximei-me do local do crime, afastei a tela e deparei-me com o Jean Michel Basqueiro  a pintar a porta da minha cozinha, aparentemente acabadinha de arrancar. O barulho estava explicado. Passei-me e dirigi-me ao louco que, além de arruinar a minha casa, estava com a televisão e as trombetas aos altos berros, a fumar um charro dentro da minha sala, tudo enquanto pintava desalmadamente com tinta fresca que caia em cima do meu tapete. Toda esta visualização acabou com a minha serenidade mental, fazendo-me surtar completamente:

– Mas que merda vem a ser esta ó Basqueiro?? Apareces-me aqui em casa a estas horas, arrancas-me a porta da cozinha, e eu que me oriente? – Disse, sentindo-me já um pouco arrependida pelo tom agressivo que acabara de utilizar. No final de contas, estava perante uma estrela que admirava…

– Oh Diva, não sejas assim! Lembrei-me de ti e esta porta inspirou-me. Fez-me lembrar aquelas que apanhava nas ruas de NY quando comecei a pintar e não tinha dinheiro para comprar telas… a tua casa tem uma super aura, parabéns!

– Desculpa lá, ó Basqueiro, passei-me da cabeça… Se não te importas, abre só um pouco a janela que já estou a ficar zonza… é incrível receber-te aqui em casa, a ti e ao teu caos criativo. A que devo tamanha honra?

E foi aqui que Basqueiro me explicou tudo. Andava há uns tempos a acompanhar-me lá de cima e percebeu que eu sou uma inquestionável admiradora da sua obra. Como tal, resolveu recompensar-me fazendo-me uma visita. Foi uma oportunidade esotérica de lhe dizer que me interessava bastante pela sua arte e que tinha pena que se tivesse perdido tão jovem. Ele mostrou-me que agora está ótimo, que já deixou a fruta, e que está a produzir como nunca.

Disse-me também que tem feito festas poderosíssimas lá no Paraíso e que, desde que recebeu a Amy Winehouse, tem sido uma loucura… Apesar de nas terras do Senhor não haver nada que se beba, estes dois conseguiram descobrir plantas fantásticas por aqueles jardins sem fim…

Como também seria de imaginar, tem passado imenso tempo com o Andy Warhol e, desde que lá chegou, continuam a ser as comadres que eram na Terra. Fiquei sensibilizada por saber que estes queridos se voltaram a encontrar. Que amorosos.

Depois de termos falado sobre as saudades que tinha de NY, de todas as celebridades com quem se tinha cruzado, e de todos os retratos que fizera delas, foi hora de nos despedirmos.

Estava despedaçada, não queria nada que se fosse embora.

Devo dizer-vos que fiquei com uma porta simplesmente maravilhosa.

E toda uma marquise para limpar.

Love,

D.

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