A avó da Diva.

Há poucas pessoas com mais sentido de humor do que a minha querida avó. Ela é simplesmente maravilhosa. São 82 anos de sabedoria e de gargalhadas genuínas. Como ela não faz ideia do que é um blog, resolvi partilhar algumas das suas máximas. Estou certa de que não se vai importar.

Aqui vão:

“Filha pelo amor de Deus, não te cases pela Igreja.”

“Os homens são como os gatos. Desde que as vizinhas começaram a dar-lhes comida ao desbarato, nunca mais tiveram que caçar um rato. Ai, nessas festas de agora elas dão-lhes logo tudo, tudo… é um problema.”

“Quando estou no jardim a falar com as pessoas aqui do bairro, primeiro faço aquela conversa banal. Depois, quando vejo que estão descontraídas, pimbas, começo a evangelizar. Elas nem dão conta!”

“Quando eras pequena pedias-me para rezar para que ficasses magrinha porque eras uma gorducha. Agora que és magra não acreditas em Deus… Olha que realmente…”

“Filha tu és linda mas era só um bocadinho menos de nariz…” – e di-lo sempre agarrada ao pedaço da penca que ela considera que está a mais.

“Gostas da minha comidinha amor? Tu não sabes fazer nada disto, pois não? Assim não vais longe…”

“Tenho uma senhora amiga que tem um filho bem jeitoso mas ele só tem 22 anos. Não vais andar a desmamar crianças, não é?”

“Tu, por favor, não arranjes outro namorado já. Passeia por aí e escolhe bem primeiro.”

“Sou velhota mas bonita, não achas? Andam sempre a gabar-me as camisolas que compro. Tudo me fica bem, incrível.”

E é verdade, ela anda sempre janota.

É uma Diva e tanto…

Love,

D.

Foto: Martin Parr. ❤

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Diva e a Satine.

Há imenso tempo que tenho vontade de acolher um gatinho. Sempre gostei desta espécie independente, carismática e ruim, se necessário. Não sou uma cat lover mas a verdade é que não costumo empatizar com pessoas que não gostam de felinos. Identifico-me com eles, acho que são umas divalhonas por natureza.

Assim que mudei de casa, e felizmente já livre de indivíduos com alergias ao pêlo no meu lar, pensei neste assunto com carinho.  Mas sempre me faltou alguma proatividade para procurar o gato dos meus sonhos. Também sempre tive receio de ter, sob minha guarda, alguma coisa que respirasse e comesse. Penso logo naqueles dias em que no meu frigorifico só consta leite azedo e não tenho outra hipótese se não ir ao Clandestino comer guiozas. Desculpas…

Acontece que um amigo querido, esse sim um cat lover, achou que eu devia ter um bicho destes. Alegou que me iria fazer bem para ganhar responsabilidade. Seja lá o que isso for.

Conversámos sobre o assunto mas ele rapidamente percebeu que, para eu ir buscar um gato, este precisava preencher alguns requisitos. Para já, tinha que ser persa, naturalmente. Diva que se preze precisa de um destes na sua vida. Aquela cabeçorra, e narizinho para dentro, arrasam comigo. Depois, idealmente, carinhoso, meigo e a mijar no sítio certo. E nada de animais que se vendem como se fossem objetos. Ou era dado, ou nada feito.

Andámos à procura da minha cara metade no mundo dos felinos mas não houve nenhum por quem me apaixonasse perdidamente. Também concluí, pela oferta que se prestava, que os humanos não oferecem persas. Enfim, rapidamente desisti.

Ontem, este meu amigo, incansável na sua missão, diz-me:

“Diva, encontrei o teu gato. Aliás, gata.” – e envia-me uma foto.

Pois bem, na foto apresentava-se uma gatinha laranja linda, persa, diva nas horas, com a sua ninhada de gatinhos, todos brancos à exceção de uma fêmea, também ela laranjinha. Fiquei doida. Era a minha gata. Senti naquele momento que a tinha encontrado. Fui para casa pensar no assunto mas, quando dei por mim, já estava a vê-la no pátio a correr e a brincar.

Super excitada, fiz um skype com um amigo de sempre que está em Londres, a quem quis contar a novidade.

“Ela devia chamar-se Satine!” – Disse ele, sabendo que sou fã do Moulin Rouge e visto que Satine é a personagem que interpreta Nicole Kidman.

Naquele instante gelei. A minha felina ruiva iria ter o nome da minha personagem fetiche! É nome de prostituta de cabaré, isso é certo, mas comigo ou andava na linha ou então era recambiada para a União Zoófila.

Ontem fui para a cama com os pensamentos focados em escovas, mantinhas e taças spé design para água e comida.  Acho que sonhei com ela e com a sua gargantilha de diamantes.

Hoje, já decidida em ser mãe deste ser vivo, falei com o meu amigo e disse-lhe:

“É minha! O que preciso fazer?!”

Ele, amoroso como sempre, disponibilizou-se para ir comigo resgatar a Satine e trazê-la para o seu novo lar. À hora de almoço até fui  à H&M procurar uma coleira digna para a Miss mas as parvas das suecas só gostam de cães. Para gatos, nada.

A meio da tarde, havia novidades. O meu amigo liga-me e diz-me que, afinal, a minha Satine não era a filhota mas sim a mãe com três anos. Respirei fundo e pensei… ok, não estava à espera que fosse a persa mãe mas, mais adulta e sabida, talvez seja uma boa surpresa. Com mais uns aninhos ficam com menos fome de sofá e cortinas. Podia ser um bom sinal.

Pensei durante algum tempo e decidi… que se lixe! Que venha a grandalhona. Vou ser mãe de uma mãe. E depois?! Estou nessa.

Ao final da tarde, mais notícias sobre a saga do dia…

Tragicamente, a minha Satine, gata ruiva e madura, tinha sido acolhida temporariamente por alguém que não quis esperar e que, sem avisar ninguém, decidiu… VENDÊ-lA!!

Ainda por cima no OLX, sem glamour nenhum, ao lado dos acessórios de telemóvel e das cómodas do IKEA a 20€.

Fiquei em estado de choque.

Aliás… estou em choque.

Como é que é possível?

Já imaginava a Satine a aquecer-me os pés este inverno.

Acabou-se o sonho. Não quero mais gatos.

Satineeee Satineeee!!

😦

Love,

D.

Diva vai ao Jamaica.

Na sexta-feira passada dei por mim, mais uma vez, neste espaço mítico da noite lisboeta. Não é propriamente o meu local de eleição mas acaba por ser inevitável.

Quando acordo, já lá estou aos encontrões, aos murros e a tentar desviar-me de homens sem pudor que vestem a personagem de caçadores mortíferos, para tentar levar uma possível “jamaicana” para casa. Pessoa essa que mal conseguem identificar, tendo em conta a multidão que se encontra naqueles 40m2 de suor, calor tropical, luzes e mescla musical que baralha os sentidos a qualquer um. Mas eles insistem, sem nada a perder, sem nada a temer. Ah valentes..!

A odisseia começa logo à entrada. Porteiro com ar latino, na casa dos quarenta, mas tão cansados da noite que parecem cinquenta, olha para a fila como quem está a vender vistos gold ao desbarato. A população que anseia entrar, geralmente formada por 90% de público masculino e umas garinas com os copos que, como eu, vão lá parar, tenta evidenciar-se para conseguir entrar na câmara de gás.

Os solteiros (se não são, fazem-se passar por… ) assim que veem gajedo tentam colar-se para adquirir o passaporte para o sonho caribenho. A mim, como sou uma pessoa de sorte, calham-me sempre na rifa. Desta vez eram espanhóis, italianos ou brasileiros. Não percebi exatamente a sua origem pois o tempo de espera na fila acabou por anular a tequila que bebi no Roterdão e eu já não estava para grandes conversas. Mas também não foi necessário, uma amiga tratou de tudo. Quando realizei o momento, já estávamos a pares, estilo casamento de Santo António, porém com desconhecidos. Às vezes são os que mais duram, diz-me sempre a minha mãe. Contudo, assim que entrámos, fugimos de imediato da Torre de Babel. Já não era fácil conseguirmos um buraquinho para dançarmos as três, quanto mais um onde coubessem seis.

Já despidas de casacos e afins, era hora de dançar aquele Bob Marley que, de repente, se mistura com Nirvana. É estranho ver a transição que se faz na pista quando passamos do legalize para o moche. Apesar de alinhar,  sinto-me sempre um bocado corrompida. E assumo-me como eclética mas, quer dizer, tanto? Enfim…

Na cabine estava o DJ que, pobre coitado, deve sofrer de insónias crónicas por não saber que músicas vai passar no dia seguinte, dado o constante desafio que se impõe. Com aquele ar de falso animado, e a ouvir pela milionésima vez o Creep dos Radiohead, fazia-se acompanhar por Aldo Lima. Já este, parecia o Tinder em pessoa. Encarava de forma sedutora o público da pista enquanto que, com o olho do lado direito fazia Like e com o esquerdo, Nope. Com tanta determinação espero, sinceramente, que se tenha safado. Era merecido. 

No meio das danças levadas por encontrões, piropos com problemas gravíssimos de dicção e misturas de som esquizofrénicas, também surgiam isqueiros ao longe, bem ao género do Lucky Luck, sempre que alguma de nós sacava de um cigarro. Pessoas como eu, que passam a vida sem lume, às vezes precisam andar kms para encontrar um ser humano cívico que não faça aquela cara de quem diz: E um pulmão fresquinho, não? Pois ali no Jamaica não, minhas amigas. Ali ouso dizer que, se por acaso a bexiga apertar e não houver tempo para ir ao WC, alguém certamente se disponibilizará para ser a vossa arrastadeira. Vai é tentar arrastar-vos depois para uma cama redonda mas isso é lá convosco.

No meio de todo este caos acabei por deixar cair o meu iCoise pelo qual tinha uma ligação emocional de valor. Por isso, todo este texto descritivo se deve ao facto de eu querer muito dizer ao mundo: Odeio o Jamaica.

Ps: Aldo, se leres isto, não fiques chateado tá? Sou do bem.

Love,

D.

Diva e o Anjo Negro

Estava eu sentada num banco de jardim do Príncipe Real, já passava das 23h, quando começo a avistar um ser do sexo masculino, digno de 1.85m, pele morena e mãos irresistivelmente tatuadas, que seguravam um cigarro e uma Super Bock. Caminhava como se estivesse num desfile do McQueen, transpirava aquele look negligé-chique, tipo London Style com uma pitada de Dark Side, que eu confesso que aprecio. Só lhe faltavam uns Creepers para atingir a perfeição. Mas ele tinha potencial, lá chegará, estou certa.

Já mais próximo de mim,  percebo que carregava naquela face de anjo negro, uns olhos castanhos profundos e uns lábios de cair para o lado… Observadora compulsiva sem emenda, ainda consegui reparar que trazia uns pequenos alargadores que me fizeram crer que este senhor, minhas amigas, tem atenção ao detalhe…

Ainda sentadinha, e de telemóvel na mão pois estava à espera de um amigo, deteto que o dito cujo se começa a aproximar… As minhas mãos começaram automaticamente a transpirar, as minhas pupilas a dilatar e os meus olhos a desviar para o mupi da paragem de autocarro, numa tentativa de disfarce.  

Já nervosa, percebo que a distância de segurança entre nós estava cada vez menor e, sem resistir, torno a olhar para ele. Não é que estava a sorrir para mim?! Era um sorriso aberto, do género raro e sincero. Não tive outra hipótese se não sorrir de volta, assim meio constrangida mas a dar tudo o que tinha.

E, neste preciso instante, pensei: 

Tu queres ver que o homem da minha vida acabou de me encontrar?! 

Estava radiante e, acima de tudo, crente.

Estávamos ambos apenas a cinco centímetros de distância, quando ele resolve sentar-se no banco. Sim, no mesmo banco onde estava eu…

Homem de outro planeta: Miúda, posso? – Disse, já sentado.

Diva: Claro… à vontade! – Disse eu, porém, com muito pouco à vontade.

Homem de outro planeta: Posso fazer-te uma pergunta?

Diva: Claro… à vontade! – E pimbas, repeti-me. Incrível. Não conseguia dizer duas seguidas. Estava com um grave problema de vocabulário e com falhas de comunicação evidentes no cérebro. Só me ocorria que ele me ia pedir para casar, e eu ali de All Star, apanhada desprevenida…

Homem de outro planeta: Disseram-me que o Trumps é aqui perto, sabes onde é? – e remata com um big smile absolutamente irresistível.

Diva: Não. É beeeeeem longe daqui

Desorientada, tive o impulso de deitar a minha cabeça no seu colo e chorar um bocadinho. Mas, contive-me.

Como dizem as bimbas na imagem de capa do Facebook, O que não nos mata, torna-nos mais fortes…

Numa palavra:  Foda-se.

Love,

D.