Diva e a Liberdade.

Neste dia em que se comemora a liberdade e tudo o que esta congrega, em que as pessoas carregam cravos ao peito e gritam nas ruas, cortando estradas de alto impacto como a Avenida da Liberdade, eu resolvi apanhar sol no Adamastor. Não que menospreze o significado desta data, que não queira que todos nós sejamos livres de ditadores fatelas,  mas porque simplesmente estava muito sol e beber uma jola, enquanto nos manifestamos e caminhamos, fica complicado até para o Álvaro Cunhal.

Apesar de ser claramente uma ativista silenciosa, talvez até alienada e despreocupada, acreditem que dediquei parte do meu dia de hoje a pensar neste tema.

Ora bem, o que simboliza Liberdade para mim?

. Poder afirmar que tenho uma paixão platónica pelo Albano Jerónimo mesmo sabendo que ele é casado. Sei que este tema é recorrente no Divas em Apuros mas voltei a vê-lo esta sexta-feira e tenho quase a certeza que ele é o pai dos meus filhos. São coisas que se sentem. Perdoa-me o atrevimento Albby.

. Dizer que acredito na astrologia sem que me tomem como maluquinha.  Ou que me digam que esta coisa dos astros não é fidedigna quando eu sei que Caranguejo vai ter um ano de desafios e, se não estiver ciente disso, ainda é gajo para acabar a lavar escadas e apaixonado por um signo de ar ou fogo.

. Admitir, sem medos, que ainda não reciclo. Não é bonito, eu sei, e não me orgulho disso. Justifico-me dizendo que o ecoponto está a 100km da minha rua, mesmo não sendo isto o suficiente para me desculpar. Também é certo que tenho uma amiga super cívica que em sua casa recicla celeremente, que me disse há uns tempos que no meu lar sente uma espécie de liberdade, sempre que junta os plásticos com os orgânicos no mesmo saco. Ao menos isso.

. Não me sentir culpada quando, mentindo com todos os dentes, digo a um ser cansativo que sou lésbica só para não o aturar. Pena que estava no Purex e uma querida, amante do género semelhante, ouviu. Levei com ela a noite toda mesmo referindo que não era o meu tipo. Deus não dorme…

. Gritar, sem vergonha, que um dos filmes da minha vida é o Lendas de Paixão e que sempre que está a dar  na Televisão (que é o caso de hoje) não resisto a ver. São clichets atrás de clichets mas pelo menos não leio Margarida Rebelo Pinto. Ainda assim, creio que devem sentir-se livres para ler o Não há Coincidências. Não é assim tão mau.

. Poder fumar, feliz da vida, no chinês clandestino onde não há qualquer espécie de extração de fumo. É uma nojeira, sei bem.

Mas confesso que me faz lembrar de todas as vezes em que, num restaurante, alguém mandava fumo para cima do bitoque alheio e o lesado não sentia qualquer legitimidade para reclamar.

Ai a nostalgia…

Love,

D.

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Diva, o cérebro e o coração.

Há temas que me interessam pelo seu cariz filosófico e os quais me fazem crer que ainda tenho muito para aprender. Tenho a sorte de ter amigos que, além dos livros, me conseguem dar visões da vida absolutamente distintas da minha. Visões que faço por compreender e tentar acolher na minha cabeça, como se fosse possível colocar uma pen no lobo frontal e, a partir daí, raciocinar segundo novos critérios. Não é uma tarefa fácil mas estou crente que, depois de muitas tentativas, lá chegarei.

Este fim de semana, o ficheiro que acabou por se corromper antes de se edificar no meu pensamento, falava da relação entre o cérebro e o coração. Estes dois maganos que para alguns são tão dissociáveis e, para outros, estão tão intrinsecamente ligados. Suspeito que os meus andam sempre aos melos. Mas adiante…

Já que nem toda a gente tem paciência para ler o Inteligência Emocional, ou tem o privilégio de conhecer gente racional, desapegada e claramente iluminada, o melhor é analisarmos alguns aspetos práticos da vida. Tudo para conseguirmos, pelo menos, identificar se a nossa tendência recai para o Emocional ou para o Racional.

Vamos lá:

Dar uma nega a alguém que está interessado em ti:

  • Os Emocionais dizem coisas como: “Não é que não queira ir, é a Mononucleose que me tira forças para tudo”
  • Os Racionais não respondem, bloqueiam a alma em tudo quanto é canal de comunicação e rezam para nunca mais a verem.

Depois de ver o Masterchef All Stars: 

  • Os Emocionais, como acreditam que tudo está ao alcance do ser humano, vão para a cozinha tentar reproduzir o esparguete de courgette.
  • Os Racionais só veem o programa de barriga cheia, depois de jantar omelete mista.

Mensagem lida e não respondida pelo ser amado:

  • Os Emocionais concluem imediatamente que o dito está às portas da morte, internado nos cuidados paliativos do S.José e que, por isso,  não teve  sequer hipótese de enviar um emoji. 
  • Os Racionais mudam a foto de perfil do Facebook e instalam o Tinder.

Aquela saída à noite com o teu amigo que está a antibiótico:

  • Os Emocionais, solidários, bebem Coca-Cola a noite toda porque beber sozinho não faz sentido.
  • Os Racionais bebem até cair dado que não têm uma boleia segura, depois da night, há décadas.

Aquele momento em que as senhoras evangélicas te abordam na rua:

  • Os Emocionais recebem o folheto Depois da Terra do Senhor, ouvem as senhoras por belos 5 minutos, chegam atrasados ao trabalho e, de folheto já no bolso, acham que pode ser pecado deitá-lo no lixo.
  • Os Racionais fazem um piqueno sprint assim que avistam a dupla de Idalinas e, com isto, ainda conseguem beber a bica antes de entrar no office.

Quando percebes que o teu date não vai pagar o jantar:

  • Os Emocionais não curtem.
  • Os Racionais não curtem.

Se não tens dinheiro para pagar o repasto, não convides.

Há limites.

Love,

D.

 

Diva e o Desemprego.

Acontece aos melhores mas não há nada que surja na vida por acaso. Quando uma Diva, de repente, percebe que está no mundo do desemprego só tem duas opções:

  1. Encarar a situação.      2. Agilizar os processos.

É uma sensação estranha, confesso. É sentir que não se tem nada para fazer, ao mesmo tempo que se tem tudo para organizar. Um futuro para pensar, um café para espairecer e descontrair e, mais uma vez, um futuro para pensar e um futuro para pensar… É uma espécie de loop que invade o nosso cérebro e nos abana da carola aos joanetes.

No meu percurso de trabalhadora ativa, aconteceu-me isto uma vez. Durou 3  longos meses. Foram duros, lembro-me, mas a minha casa andou um brinco esse trimestre. Até a roupa passava a ferro.

Alguns anos depois, o monstro da aparente inutilidade voltou a invadir-me o espírito. De forma mais elucidada mas, ainda assim, com o carimbo do desemprego no braço. Também na cara, especialmente na testa.

Contudo, como tudo tem um lado cómico, esta história não foge à regra.

Dias depois de ter percebido a minha mais recente condição, ainda não oficialmente desempregada, já estava à procura do Centro de Emprego da zona. “Rua do Conde Redondo”, dizia o site. Perto de casa e tal, lá fui eu pela primeira vez a um sítio destes. Rua acima, rua abaixo, nem sinais do oásis das formações e oportunidades profissionais.

Já cansada de procurar, resolvo perguntar a um senhor castiço que fumava uma cigarrilha e vestia um casaco digno do Coronel Tapioca:

_”Desculpe, sabe dizer-me onde fica o Centro de Emprego?”

_ “Ah, minha querida, agora só em Picoas, este já não existe. Aqui não dava nada.” – respondeu muito seguro e amigável.

“Aqui não dava nada” –  Incrível como de frases sábias o Mundo é feito.

Como não dava nada?? Mas é suposto dar o quê exatamente? Não percebi mas fiquei francamente intrigada com tamanha afirmação.

Baralhada, segui rumo a Picoas onde acabei por encontrar o belo do estabelecimento. Assim que entrei, sem carta de demissão ainda e apenas numa de perceber como as coisas funcionam, senti-me a croma que  fica na fila do Santini só para pedir um café. Contudo, consegui expor a minha situação ao segurança que, amavelmente, me facultou a senha para o balcão menos requisitado.

Já sentada frente ao senhor que me iria atender coloquei algumas das minhas mais pertinentes questões, enquanto ele se ria para dentro e me dizia: “Mais vale vir aqui quando tiver os papéis e tivermos os dados todos”.

Mas qual é o mal fazer perguntas, tentar esclarecer-me sobre os fantásticos projetos apoiados pelo Estado, mesmo não sabendo o valor do meu ordenado bruto? Que falta de eficiência e paciência. Estes funcionários públicos não merecem as horas semanais que trabalham.

Já depois de ter sido claramente a chacota do dia para o Rei do IEFP, decidi ir ao ACT (Autoridade para as Condições do Trabalho) apenas para confirmar alguns detalhes da minha saída empresarial. Cheguei ao local pretendido por volta das 15h na expetativa de ser atendida, visto que esta extrema autoridade encerra portas às 17h30. 

Assim que lá cheguei, pensei, bom… ou uma fábrica aqui em Entrecampos fechou hoje e despediu 100 pessoas de uma vez, ou isto está mais mais grave do que pensava.

Logo que passei pela porta das trevas, vi aquela coisa super tecnológica que distribui senhas já agarrada à parede com fita-cola, consequência dos maus tratos constantes, com uma nota que dizia: “Já não há senhas.”

Não muito surpreendida, dirigi-me ao poiso onde estava o segurança (mais um). Aparentemente angolano, assim para o gordinho, estilo Buda africano de sorriso aberto, disse-me:

_ “Boa tarde, diga-me menina.”

_ “Boa tarde, eu queria perceber como funcionam as senhas aqui… é preciso vir muito cedo?”

_ “É, sim senhora. Assim muito cedo mesmo.” – Disse-me franzindo a testa.

_ “Ok, muito cedo. Falamos de que horas?”

_ “Ui, muito cedo senhora. Por volta das 6h30.  Aqui temos 30 senhas de manhã e 30 senhas à tarde.”

_”6h30? Como assim 6h30?!”

_”É menina, hoje quando aqui cheguei já tinha já uma multidão à porta…”

_ “Mas esta coisa não abre às 9h?!” – Não chegou a ser um grito, mas quase…

Respirei, dei uma gargalhada nervosa, levei os meus óculos de sol à testa e, na tentativa de agilizar uma cunha, deitei o meu tronco de forma sensual no balcão do senhor, proferindo:

_ “E as senhas da tarde são entregues a que horas..?”- Terminando a frase com o meu melhor sorriso.

Apesar do meu charme gasto e cínico, percebi naquele momento que acabara de fazer uma pergunta absolutamente retórica. Naturalmente que são distribuídas também de manhã. Até o macaco Gervásio, que só recicla cenas, sabe esta merda.

Posto isto, dei um “adeus” caloroso ao meu novo amigo e disse-lhe que, para isso, teria que ir de direta. Só depois de uns copos é que estaria capaz de enfrentar esse desafio. Não estava de todo pronta para gerir tanta desinformação ao mesmo tempo, tantos números à minha frente, tanta depressão à minha volta, tantos seguranças para seduzir. Logo eu, que dou uma unha das grandes para estar na Guest.

A pé, já depois de quilómetros percorridos visto que o Centro de Emprego do Conde Redondo era logo ali ao pé de casa e não fazia sentido andar de Metro, sentei-me algures num degrau de uma porta da Av. 5 de Outubro. Ainda sem chapéu no chão para os trocos, acendi um cigarro e comecei a pensar em coisas inócuas como emigrar, desopilar,  ou talvez tomar uma caixa de Xanax. Mas não. Aguentei-me.

Assim que me ergui novamente, vejo na minha direção um senhor carregando dois sacos de compras daqueles bem pesadotes.

Como se o meu dia estivesse a correr bem, o caramelo resolve aproximar-se da minha pessoa e, de olhos marotos, pergunta-me:

_” Linda, não me queres ajudar a levar um saco?”

_” Não fofo, estou cansada.”

Oh se estava…

Dois dias depois, e só porque sou boa pessoa, recebi uma proposta de emprego.

Obrigada Universo.

Love,

D.