Diva e a Criança.

Sentei-me numa esplanada para escrever sobre alguns temas que tinha em mente mas a inspiração simplesmente não surgia. O sítio era bastante agradável, tirando o facto de ficar ao lado de uma espécie de sala de espetáculos onde ensaiava um grupo de gaitas de foles. Primeiro achei alguma graça ao som que me transportava para os kilts, os homens de barba rija, mas a verdade é que aquela música escocesa começou a entrar no meu cérebro, de tal maneira, que só me apetecia pintar a cara de azul e desatar a mandar cadeiras para o ar. Sempre que escrevia uma frase, lá vinham as gaitas para me distrair. Foi aqui que pensei que não valia a pena forçar a mente e comecei a observar à minha volta para detetar se havia, por ali, algo interessante para relatar. E havia.

Ao meu lado estava um pai, charmoso por sinal, com uma menina loira, linda de morrer, com cerca de 3 anos que trazia uns óculos de sol brancos pontiagudos, bem ao género de Marilyn Monroe, uns All Star cheios de pinta e um chapéu que a fazia parecer uma framboesa ambulante. Percebi claramente que se tratava de uma mini diva e, por isso, fiquei atenta ao que fazia.

Sentada muito perto deles, senti que a pequena queria comunicar comigo. Palrava na minha direção e apontava-me a bolacha maria numa tentativa de me oferecer o seu bem mais precioso. Já o pai, encavacado, pedia-lhe baixinho e gentilmente para parar de me perturbar. Ela, dona de si mesma, saía da sua mesa a correr, ainda muito trapalhona, agarrava o cão vadio pelo rabo, subia e descia da cadeira, enquanto o pai tentava que ela se mantivesse quieta na hora da refeição. Às tantas, quando surge uma sopa em cima da mesa, a miniatura olhou para mim e disse-me com os olhos: “Que merda é esta que este gajo me trouxe?!”

E foi neste momento que começou o espetáculo. Desatou a dançar e a cantar para mim enquanto o pai, coitado, só dizia: “Sentada, sentada!” Mas o pequeno demónio, nada. Já forçada a estar quieta, fugia das colheres muito contrariada enquanto dizia com ar sofredor, “mamã, mamã!”.

O progenitor, coitado, olhava para o céu mas, muito paciente, continuava na sua missão de fazer com que a diva comesse. Sacou o telemóvel do bolso para a animar mas ela continuava a enunciar o nome carinhoso da fêmea que a carregou na barriga, numa de lhe dizer “meu amigo, sem a minha mãe não há sopa para ninguém”.

Entretanto chegou-lhe a sede. Ela apontava de forma nazi para a garrafa de água e o pai, submisso, tentava dar-lhe de beber. Contudo, infrutiferamente. Sempre que o gargalo se encostava à sua pequena boca, ela cuspia. Ele, emocionalmente abatido, pegava na garrafa para a guardar. Já ela, quando via a garrafa entrar de novo na mala gritava: “Água, água!”. E isto repetiu-se algumas dez vezes.

Percebi claramente que não era água que ela queria, mas sim levá-lo à loucura.

Ele, já a rezar baixinho, continuava a sugerir-lhe hidratação, mas ela repentinamente desatava a gritar “fruta!”. E quando ele lhe mostrava a maçã, ela palrava “água!”. Até eu já sussurava “Decide-te!”

Mas ela não se queria decidir. Mais uma vez, queria acabar com a sanidade daquele ser que a trouxe ao mundo.

Enquanto o via, de forma embaraçosa, ser controlado por esta Merkel do mundo infantil, ela permanecia sentada na sua poltrona patrocinada pela Estrella Galicia, sorrindo para mim como forma de me mostrar, subtilmente, todo o poder que exercia sobre aquele homem. O pobre do pai, entretanto, resolveu afogar as mágoas numa imperial e, como tal, teve que a deixar por breves instantes para ir fazer o pedido. Nestes cinco minutos a sós com ela, vejo-a encher uma bela colher de sopa que, com muita calma, engoliu sozinha. Fiquei chocada com tamanha ousadia e, ao mesmo tempo, curiosa com tanta inteligência. Era uma pequena manipuladora esta criatura. Que classe, pensei.

Já com alguma pena do desgraçado, claramente uma vítima nas mãos daquele bebé, deixei de a presentear com o meu olhar amistoso para que ela percebesse que não tinha uma parceira no crime.

O pai, vendo que estava a assistir ao show, disse-me, “Já viu o que estas crianças nos fazem? Tem filhos?”

Respondi que não. Também lhe disse que a sopa ali era intragável e que provavelmente era por isso que ela fazia tremenda fita.

No fundo, mesmo sabendo que não tinha razão, não resisti e tomei o partido dela. Era muito glamour para uma criança daquela idade. Não conseguia ser sua inimiga e muito menos dizer que acabara de a ver comer sozinha sem esforço algum, como se estivesse no Belcanto a morfar um creme de espargos.

Enquanto isto, um dos membros do grupo que ensaiava, dirigiu-se a uns amigos que estavam na esplanada: “Há aí alguém para me afinar a gaita?!”

Ele riu-se. Ela riu-se, como se tivesse percebido a piada. Todos achámos graça.

O pai, já tendo desistido da sopa, e de imperial no bucho, agarrou na mão da sua framboesa e seguiu caminho.

Já eu, fiquei com conteúdo de luxo e a pensar que esta coisa de ter filhos é para os valentes. E também no pobre pai que certamente não merece isto.

Ainda por cima charmoso como era…

Love,

D.

 

 

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