O Roterdão faz anos Domingo.

Este Domingo dia 18, o meu querido Roterdão faz 1 ano que se reergueu, mais bonito e simpático. É por isso que queria deixar aqui razões de sobra para passarem por lá:

. É o único sítio no Cais do Sodré onde ainda têm a consideração de disponibilizar amendoins, pipocas ou batatas fritas no balcão. Eu tenho os meus mínimos e sim, preciso de um salgadinho para empurrar com a Imperial. Obrigada por perceberem isso.

. O bar mantém muita coisa originária dos anos 80, como os bancos à marinheiro repletos de histórias malandras e a fachada tão mítica da Rua Cor de Rosa. Já na pista, contamos com um espelho gigante que nos permite fazer coreografias absolutamente sincronizadas. Já lá orientei umas danças em grupo melhores que muitas aulas de Zumba. Depois de uns copos, também é sempre bom termos acessível o nosso reflexo para sabermos se o suor ainda nos mantém decentes, de cabelinho composto e sem o eyeliner na testa. Acontece-me algumas vezes e, como tal, já não papo mais do que 1h sem verificação facial.

. No Roterdão encho a barriga com os meus hits favoritos. Ao contrário da maior parte dos bares das redondezas, ali 80´s não significa Bryan Adams e Samatha Fox. Vamos mais longe e com mais classe. Acreditem em mim, cheguei a invadir a cabine do Oslo para ver, com os meus próprios olhos, o que habitava naqueles arquivos. O melhor que lá encontrei foi o primeiro álbum das Spice Girls. Não tive outra opção se não pedir o 2 become 1. Triste mas verídico.

. O porteiro é uma espécie de Richard Gere mas careca. Também ligeiramente mais baixo. Vá, talvez não seja assim muito parecido. Mas tem os olhos dele. Nos dias que correm já não é mau. Tenham paciência.

. Mesmo quando está cheio, temos espaço de sobra para respirar. São dois pisos à nossa disposição onde passam sonoridades entre o rock, pop, funk e soul. Ao contrário do Jamaica onde cheguei a aterrar no colo de um senhor que estava de cadeira de rodas. Como não se cansavam de me empurrar, queimar, seduzir e maltratar, não tive solução se não cair no colo do único gajo que, pelo menos, estava sentado. Menos mal.

. A querida Ana, gerente, sempre que lá vou oferece-me uma Tequila Gold. Até já sabe que gosto de acompanhar com laranja mas que dispenso a canela.

É só por isso que escrevo este texto…

Vá, não é nada.

Eu vou lá estar a “dar tudo” porque é um dos meus spots favoritos.

Bora.

Love,

D

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Diva troca LIS-BON pelo Ouriço.

No fim de semana passado recebi um convite para o LIS-BON – Jardim Sonoro, festival de música de dança que acontece no Parque Eduardo Sétimo.

É um evento engraçado que se prolonga durante a tarde e que normalmente se esgota com os “Fusers”, “Bloopers” e “Brunchers” deste país. Neste caldeirão eletrónico juntam-se também alguns cromos da publicidade e magníficas figuras públicas, daquelas a quem eu às vezes digo “olá” por achar que as conheço do “café”.

O Jardim Sonoro está entre as festas favoritas dos ravers contemporâneos, esses seres mágicos, urbanos, mestres dos filtros Instagram, detentores dos fantásticos óculos de Sol da Moov Shop, com vidas sociais ativas, incrivelmente sedutoras e bem sucedidas. 

Estarei iludida? Creio que não.

O que é certo é que troquei tudo isto (e reparem que não foi pouco) por uma noite na Ericeira. Esta é que é a verdade.

Mas passo a explicar.

Tratava-se do aniversário de uma amiga, nativa da região com o micro-clima mais peculiar da estremadura, que resolveu fazer uma festinha regada com vinho verde, comidas saborosas e uma piscina onde as ressacas se curam com banhos de glamour. Uma festa que começou à tarde e que continuou pela noite dentro, não estivessem os convidados mortinhos por um pezinho de dança.

A Ericeira tem graça. Os bares são sui generis, com pinta e passam sonoridades entre o hip-hop e os 80´s. As ruas do centro noturno enchem-se de turistas, gente da terra e alguma miudagem. A maior parte são surfistas, essa raça geralmente bem-apessoada e bronzeada cujo género literário favorito é o Wind Guru, o filme de culto está na seleção do Beachcam  e o lema de vida, o profundo slogan “Destrói as Ondas não as Praias”. Quase me afogo com tamanha profundidade.

Já com o roteiro dos bares feito, algumas capirinhas e capiroskas no bucho, fomos direitos ao ex libris da Ericeira:

O Ouriço. 

A discoteca mais antiga da Península Ibérica.

Com 55 anos de existência, este espaço conta com um pé direito inferior ao da minha casa e com uma ventilação digna de uma ventoinha de bolso.

Assim que entrámos neste Club, (adoro este termo, acho super New York) um calor insuportável, misturado com cacimba humana, levava o nosso organismo ligeiramente alcoolizado para perto de um coma profundo. Sobre a música, era tão boa que preferia ouvir a estação de rádio de Oliveira de Azeméis até à eternidade. Porém, como o espaço é mítico e o grupo estava divertido, resolvi dar uma oportunidade e muito rapidamente já dançava e cantava emocionada, fingindo que sabia os lyrics. Estranha forma de integração esta de palrar músicas que mal conhecemos, não é? Atire a primeira pedra quem nunca o fez.

A dada altura, não indiferente ao cansaço, já revirava os olhos dando sinais de que estava a entrar nas últimas. Um amigo, daqueles para quem a noite ainda agora começara, percebeu o meu estado de derrota e, por considerar que podia ser um elemento dissuasor contra a festa, resolveu gritar na minha direção:

– “DIVA, TENS QUE TER PACIÊNCIA!”  

ou seja:

“Aguenta-te pois vais ter que papar mais 10 espanholadas, 5 hits do top Orbital, 3 cromos a pedirem-te cigarros em troca de perdigotos e… sabe Deus.”

Apesar de cansada, acabei por me converter ao espírito do grupo e dirigi-me ao WC para ganhar forças e regressar à Pista de Verano. 

Mal integro a fila das meninas aflitas, percebo que estou ao lado de uma Diva, a quem o Sol já queimou algumas camadas valentes da pele, claramente com os copos mas com uma atitude digna de vedeta da TV 7 Dias. Aparentemente cliente da casa, trazia uma espécie de rabo de cavalo de lado, um vestido curto preto e umas pratas que lhe envolviam o pescoço. Com as suas costas exercia pressão para fechar a porta do WC, não permitindo que a confusão se gerasse ali dentro, ao mesmo tempo que alçava uma perna sobre o lavatório, com a naturalidade de quem pousa um cotovelo na mesa durante a sobremesa.

Instintivamente percebi que estava perante a Rainha da Ericeira.

Em 3 tempos meteu conversa comigo e tentou apurar o que fazia da vida. Antes de lhe responder, fui atropelada por uma amiga que, com ar confiante e determinado, lhe disse na minha vez:

– Ela tem um BLOG! – Confesso que me deixou lisonjeada.

Senti-me obrigada a dizer que essa não era exatamente a minha profissão e, sem lhe dar grande atenção, fui colaborando com o seu inquérito das 5h da manhã. Apesar de ter apreciado o nome do meu ninho virtual, assumiu que nunca tinha lido nada meu, nem tinha ouvido falar em tal coisa.

Enquanto ela continuava a falar na minha direção, eu só tinha olhos para aquela perna alçada. Estava a deixar-me desconfortável e, portanto, pouco receptiva a esta amizade com a Nobreza do Oeste.

Não contente com a minha postura, aparentemente indiferente, começou a jogar alto para captar a atenção daquela que suspeitava ser a blogger do ano:

Rainha da Ericeira: Sabes que o sítio onde trabalho representa 4 blogs…? É uma empresa daquelas pequenas, que ninguém conhece…  Está no retalho e na distribuição… Só tem 36 lojas e representa 11 marcas, imagina… – e foi a primeira vez que a ironia me soou pior que uma cena de product placement da TVI.

Diva: Ah isso é ótimo. Mas de quê? – disse eu ao mesmo tempo que a minha amiga, defensora do meu talento e vocação, continuava a responder por mim:

Amiga defensora da Diva: “Ahh ela é muito independente!” – Como quem diz, “Ela não precisa dessas coisas…” (Eu? Nunca. Aliás, não tenho mãos a medir com os patrocínios que me chegam).

Rainha da Ericeira: É uma empresa pequena, com marcas desconhecidas…  De certeza que não conheces.- E assim continuava a Rainha da Ericeira, num loop irónico e tonto, sempre de perna alçada e cara de whiskey.

Diva: Pois sim, claro. Mas marcas de quê…?! – Respondia eu já sem paciência mas com alguma curiosidade.

Rainha da Ericeira: Essa é que é essa, não é…? – Oh Deus. Não tinha bebido o suficiente para isto, pensei. Ela estava mesmo picada. Provavelmente pensou que me estava a armar em Pipoca Salgada quando eu só queria fazer xixi.

A muito custo, e não querendo revelar o segredo desta querida, só vos posso dizer que acabou por afirmar que trabalha naquela marca de luxo do surf com um nome começado por “Ericeira”. Depois da revelação do misterioso graal, continuou a perseguir-me com tanta agressividade que tive que abandonar o barco para não levar uma pranchada. Não ando à porrada desde o 5º ano, senti que podia correr mal.

Despedi-me dela cordialmente e voltei para a pista onde estavam os meus amigos, ainda em êxtase, como se tivessem sido pagos pela CM da Ericeira para animar a malta.

Ainda pairava na minha cabeça o momento surreal pelo qual tinha passado. Teria eu acabado de desperdiçar o patrocínio da minha vida?

Logo eu, uma surfista em ascensão e fã incondicional dos trapos da Semente e da Billabong

Love,

D.

Diva vai ao Avante.

“Há festas e depois há a Festa do Avante”. Foi o que me disseram antes de ter decidido que iria pela primeira vez à reunião anual dos camaradas.

Tudo começa quando chegamos à Amora e percebemos que o Cacém nem é assim tão feio. Um calor insuportável (e entenda-se que cheguei pelas 19h e picos) acompanhava as famílias que, tal como eu, se dirigiam para a entrada. Na “bagagem” percebia-se que traziam garrafas de vinho, cadeiras, arcas e crianças em êxtase por poderem participar na festa dos crescidos.

No lugar dos betolas com ar de surfistas, que habitualmente validam os bilhetes nos festivais da moda, estavam homens com bigodes capazes de albergar gente, peles queimadas do Sol digno da Lagoa de Albufeira e barrigas inchadas da água-pé. Anfitriões de uma elegância absolutamente incontornável.

Assim que passei pelo detetor de esquerdistas, mas nem 10 segundos depois, fui atacada por um exército de melgas, de tamanho praticamente invisível, que em três tempos se alimentaram ferozmente de mim.

Já agora, um muito obrigada por me terem avisado que aquela merda é mais agressiva que o Comporta Café depois das 18h. Quando dei por ela, ainda nem uma jola tinha bebido e já me estava a coçar que nem um carocho. Portanto, situação nada “fenistilástica”.

Mas adiante.

Não fazia ideia do que a festa tinha para oferecer e até me surpreendi com os vários stands das regiões presentes, com iguarias da nossa gastronomia, desde os doces aos salgados. Não indiferente ao aroma das espetadas, aterrei na Madeira onde trabalhavam umas senhoras com muito bom ar e que não se fizeram rogadas quanto à quantidade de manteiga a espetar no bolo do caco. Comi um pica-pau bem jeitoso e bebi uma poncha assim para o potente.

O objetivo no Avante é um pouco isto. Comer e beber.

Beber que nem uma besta, ceder às comezainas para não perder forças, continuar a beber que nem uma besta. Isso até é fixe. E não, não é tão redundante assim. Todos sabemos que, com os copos, não há dois minutos iguais.

Ali joga-se ao campeonato do tinto. Quem for de INEM para casa, perde. Quem andar na Roda Gigante sem vomitar, ganha. Sim, os comunas também têm uma espetacular Roda Gigante. Fuck you Rock in Rio, seu capitalista.

Na minha humilde opinião, a magia desta festa está muito ligada ao público eclético que possui. Bad Boys meio azeiteiros, portadores de braços bem torneados e caligrafados, passeiam cães de raça geneticamente alterada, enquanto meninas com pinta Chapitô, sentadas à chinês na relva, enrolam charros com mestria.

Gajos com barbas mal amanhadas e t-shirts que em tempos foram das traças, também se cruzam com mães fumadoras compulsivas que gritam com os filhos de ouvidos mocos que se esfumam na multidão. Os comunistas são realmente uns fofos, desde crianças que estão habituados a fugir.

Sobre a música, senti que o cartaz podia ser mais aliciante mas não  esperava outra coisa. Uma curiosidade, Sérgio Godinho e Jorge Palma foram convocados. Estranho, nunca pensei. Outra ainda, Xutos e Pontapés. Também nunca me tinha ocorrido. Quem diria? De ressalvar a triste notícia sobre Rita e o Revólver que queria muito ver mas acabei por não chegar a tempo. Ou seja, nem em lazer consigo cumprir horários. Incrível.

Também assisti a um recital de poesia no espaço Alentejo com algum potencial, não fosse a senhora estar a declamar com o mesmo tom com que se apresenta o mote para as Autárquicas. Apesar da determinação evidente da oradora, o seu público era constituído maioritariamente por senhoras didádi  que já não se aguentavam nas canetas, nem com os olhos abertos. Como tal, faziam “discretas” sestas ao luar, sentadinhas nas suas chaises longues de sisal. Cadeiras estas que já devem ser gajas para mais de 20 Avantes.

Pessoas abraçadas, e muito bêbadas, a cantar  “Avante, camarada, Avante (…)” também foram uma constante. Não fosse eu uma lamechas, até achei bonito e me emocionei (ou não). Sugiro que experimentem dar 2 litros de tinto a um gajo do CDS e lhe peçam para cantar Mafalda Veiga. Duvido que faça igual brilharete. Mas duvido mesmo.

Algo sobre o qual não podia deixar de falar, precisamente porque representa o auge da festa, é a bela da “Carvalhesa”. Quem já lá foi, sabe bem do que falo. É a descompensação total. Velhotes, jovens e crianças, quando ouvem o hino do seu partido, perdem as estribeiras e desatam a correr em direção ao palco para dar tudo numa dança frenético-moribunda. Bem sei que parece antagónico mas é o termo que se aplica. No fundo, enquanto as cabeças dos camaradas pensam que estão a celebrar a sinfonia vermelha com a elegância, e atitude revolucionária, do charmoso Che Gevara, os seus movimentos corporais só nos lembram Jerónimo de Sousa numa performance contemporânea regada com 5 bagaços.

Quando achamos que o período de libertação comunista (a própria da Carvalhesa) está a chegar ao fim, eis que do palco partem fogos de artifício imponentes que levam os camaradas à loucura generalizada.

Eu permaneci sentada e surpreendida a observar a multidão. Nunca tinha visto tal coisa. Sentia que estava a presenciar uma espécie de fenómeno sociológico com os dias contados. De repente fui transportada para um ritual ayahuasca organizado pelo Bloco de Esquerda. Estranhamente interessante.

Não posso ser aldrabona e dizer que não senti nada. Aquilo, de alguma forma, até mexeu comigo.

Se depois desta explosão de emoções me metessem uma mesa de voto à frente, era gaja para votar 3 vezes.

Avante Camarada, Avante.

Love.

D.