Diva vai ao Avante.

“Há festas e depois há a Festa do Avante”. Foi o que me disseram antes de ter decidido que iria pela primeira vez à reunião anual dos camaradas.

Tudo começa quando chegamos à Amora e percebemos que o Cacém nem é assim tão feio. Um calor insuportável (e entenda-se que cheguei pelas 19h e picos) acompanhava as famílias que, tal como eu, se dirigiam para a entrada. Na “bagagem” percebia-se que traziam garrafas de vinho, cadeiras, arcas e crianças em êxtase por poderem participar na festa dos crescidos.

No lugar dos betolas com ar de surfistas, que habitualmente validam os bilhetes nos festivais da moda, estavam homens com bigodes capazes de albergar gente, peles queimadas do Sol digno da Lagoa de Albufeira e barrigas inchadas da água-pé. Anfitriões de uma elegância absolutamente incontornável.

Assim que passei pelo detetor de esquerdistas, mas nem 10 segundos depois, fui atacada por um exército de melgas, de tamanho praticamente invisível, que em três tempos se alimentaram ferozmente de mim.

Já agora, um muito obrigada por me terem avisado que aquela merda é mais agressiva que o Comporta Café depois das 18h. Quando dei por ela, ainda nem uma jola tinha bebido e já me estava a coçar que nem um carocho. Portanto, situação nada “fenistilástica”.

Mas adiante.

Não fazia ideia do que a festa tinha para oferecer e até me surpreendi com os vários stands das regiões presentes, com iguarias da nossa gastronomia, desde os doces aos salgados. Não indiferente ao aroma das espetadas, aterrei na Madeira onde trabalhavam umas senhoras com muito bom ar e que não se fizeram rogadas quanto à quantidade de manteiga a espetar no bolo do caco. Comi um pica-pau bem jeitoso e bebi uma poncha assim para o potente.

O objetivo no Avante é um pouco isto. Comer e beber.

Beber que nem uma besta, ceder às comezainas para não perder forças, continuar a beber que nem uma besta. Isso até é fixe. E não, não é tão redundante assim. Todos sabemos que, com os copos, não há dois minutos iguais.

Ali joga-se ao campeonato do tinto. Quem for de INEM para casa, perde. Quem andar na Roda Gigante sem vomitar, ganha. Sim, os comunas também têm uma espetacular Roda Gigante. Fuck you Rock in Rio, seu capitalista.

Na minha humilde opinião, a magia desta festa está muito ligada ao público eclético que possui. Bad Boys meio azeiteiros, portadores de braços bem torneados e caligrafados, passeiam cães de raça geneticamente alterada, enquanto meninas com pinta Chapitô, sentadas à chinês na relva, enrolam charros com mestria.

Gajos com barbas mal amanhadas e t-shirts que em tempos foram das traças, também se cruzam com mães fumadoras compulsivas que gritam com os filhos de ouvidos mocos que se esfumam na multidão. Os comunistas são realmente uns fofos, desde crianças que estão habituados a fugir.

Sobre a música, senti que o cartaz podia ser mais aliciante mas não  esperava outra coisa. Uma curiosidade, Sérgio Godinho e Jorge Palma foram convocados. Estranho, nunca pensei. Outra ainda, Xutos e Pontapés. Também nunca me tinha ocorrido. Quem diria? De ressalvar a triste notícia sobre Rita e o Revólver que queria muito ver mas acabei por não chegar a tempo. Ou seja, nem em lazer consigo cumprir horários. Incrível.

Também assisti a um recital de poesia no espaço Alentejo com algum potencial, não fosse a senhora estar a declamar com o mesmo tom com que se apresenta o mote para as Autárquicas. Apesar da determinação evidente da oradora, o seu público era constituído maioritariamente por senhoras didádi  que já não se aguentavam nas canetas, nem com os olhos abertos. Como tal, faziam “discretas” sestas ao luar, sentadinhas nas suas chaises longues de sisal. Cadeiras estas que já devem ser gajas para mais de 20 Avantes.

Pessoas abraçadas, e muito bêbadas, a cantar  “Avante, camarada, Avante (…)” também foram uma constante. Não fosse eu uma lamechas, até achei bonito e me emocionei (ou não). Sugiro que experimentem dar 2 litros de tinto a um gajo do CDS e lhe peçam para cantar Mafalda Veiga. Duvido que faça igual brilharete. Mas duvido mesmo.

Algo sobre o qual não podia deixar de falar, precisamente porque representa o auge da festa, é a bela da “Carvalhesa”. Quem já lá foi, sabe bem do que falo. É a descompensação total. Velhotes, jovens e crianças, quando ouvem o hino do seu partido, perdem as estribeiras e desatam a correr em direção ao palco para dar tudo numa dança frenético-moribunda. Bem sei que parece antagónico mas é o termo que se aplica. No fundo, enquanto as cabeças dos camaradas pensam que estão a celebrar a sinfonia vermelha com a elegância, e atitude revolucionária, do charmoso Che Gevara, os seus movimentos corporais só nos lembram Jerónimo de Sousa numa performance contemporânea regada com 5 bagaços.

Quando achamos que o período de libertação comunista (a própria da Carvalhesa) está a chegar ao fim, eis que do palco partem fogos de artifício imponentes que levam os camaradas à loucura generalizada.

Eu permaneci sentada e surpreendida a observar a multidão. Nunca tinha visto tal coisa. Sentia que estava a presenciar uma espécie de fenómeno sociológico com os dias contados. De repente fui transportada para um ritual ayahuasca organizado pelo Bloco de Esquerda. Estranhamente interessante.

Não posso ser aldrabona e dizer que não senti nada. Aquilo, de alguma forma, até mexeu comigo.

Se depois desta explosão de emoções me metessem uma mesa de voto à frente, era gaja para votar 3 vezes.

Avante Camarada, Avante.

Love.

D.

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