Diva regressa ao Ginásio.

Percebi que voltar ao ginásio, depois de meses e meses de ausência, é mais difícil do que parir um bebé de 7kg sem epidural. Tudo começa com o processo de decisão anterior ao regresso, que se agenda com alguma antecedência mental. Sequência bastante mais complexa do que parece, e que se inicia com um momento meditativo em que ponderamos tudo e mais um par de botas. É uma espécie de processo químico que se inaugura com: “E se para a semana fosse ao ginásio?” seguido por um: “Ah mas a Rita queria tanto estar comigo e há quase um ano que não jantamos só as duas” ou “Não era a minha avó que precisava de ajuda para mudar as cortinas das janelas?!” e daí em diante. No fundo, quando decidimos ir ao ginásio, surgem todos os tormentos do nosso passado. O que significa basicamente que, se me dessem a escolher, bebia 2 litros de óleo de fígado de bacalhau para não ter que subir a uma elíptica.

Depois de uma intensa batalha interior, acabei por decidir que no dia seguinte não tinha hipótese, ia mesmo treinar. E lá fui.

Cheguei de cabeça erguida, como quem enfrenta o primeiro dia de escola e,  já no balneário, percebi que tinha uma nódoa gigante mesmo na parte da frente da t-shirt. Já não me bastava estar mais gorda, ainda tinha que regressar suja. Irritada, estive muito perto de me aproveitar desta motivação higiénica para me convencer de que podia ir para casa. Mas não. Continuei forte.

Entrei pelo salão adentro e lá estavam as mesmas pessoas de sempre. O bimbo da crista que grita entre séries, a bixa tatuada que dá tudo no step, e que me aborrece profundamente porque fica lá cerca de uma hora como se fosse o único ser humano que precisa de trabalhar os glúteos, a miúda que até é gira mas que ficou viciada em proteína e agora carrega umas costas maiores que as do Phelps, e os gordos do costume que, coitados, ainda não perceberam que exercício com McDonald´s é só desperdício de energia.

Já sentada na bicicleta, percebo que lá ao fundo está o meu “Fã do Fitness”. Basicamente todas temos um. Faz parte, não sejam falsas. Os fãs do fitness são aqueles que aproveitam o treino para dar uma perninha no engate. São os tais que sorriem para nós, que utilizam sempre as máquinas que se encontram ao nosso lado e que nos fazem olhinhos pelo espelho.

Normalmente são gordos e ressabiados mas o meu até é elegante. Tem pouco mais de 40 anos e está em boa forma. Não sendo o meu estilo, perdão, até posso dizer que tenho um fã de luxo. Assim que me viu, fez aquela cara de surpresa, como quem não me via há anos. Claro que não tive outra hipótese se não soltar um olhar de quem esteve ausente por andar muito ocupada. A comer e a beber, claro. Já a minha expressão corporal, agora com mais 5 kgs, transmitiu um tímido “olá” pouco acentuado para o músculo do adeus não balançar demasiado, enquanto baixei a cabeça envergonhada, e claramente, desiludida comigo mesma.

Enquanto pedalava o mais que conseguia, de olhos focados num qualquer desfile que passava nas televisões da sala, quase a babar de raiva para as cabras das manequins que nos possuem inveja,  e a transpirar como uma verdadeira suína, percebo que, colada a mim, está uma gorda “a dar à perna” 4 níveis acima do meu. Eu estava no nível 3, ela no 6. Foi aqui que rebentou a bolha. Até a obesa estava em melhor forma que eu. Assim que reparei nesta ousadia, saltei imediatamente da bicicleta para a passadeira. Escolhi, armada em sabichona, aquela mesmo ao lado de uma velhota, para ninguém reparar que eu não corro. Ando rápido, com recurso a movimentos de corredor, o que é quase igual. Se a Rosa Mota conhecesse este truque, nunca se teria cansado tanto. Mas até a velha corria mais que eu. Mas como?!

Já em desespero, meti-me na fila para fazer um pouco de step mas lá estava a bixa há mais de 40 minutos, sem vontade de sair, com um rabo que mete inveja à J.Lo e a rir-se na cara das inimigas. Desisti.

Sem margem para fazer algo do princípio ao fim com o mínimo de dignidade, acabei por estender um colchão no chão para alongar por todos os exercícios que não fiz. Depois do estica perna, encolhe perna, mais para a esquerda, mais para a direita, concluí que a sala de treino não tinha lugar para uma Diva como eu e, como tal, resolvi enfiar um fato de banho que tenho desde o 9º ano (que detém algumas transparências próprias da idade) e acabei por seguir rumo à piscina.

Fiz 4 piscinas de costas, para aliviar o reumático, e quando me dei conta já estava a fazer olhinhos ao jacuzzi. Ali sim, ia ser feliz.

Meia horinha depois de permancer mergulhada naquelas fantásticas bolhas aromáticas foi o suficiente para me convencer de que até não fizera mal em ir.

Vá lá…

Love,

D.

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Diva cinéfila. Ou não.

Apesar de ter uns quantos amigos que são verdadeiros cinéfilos, eu não sou muito dada à teoria do Cinema. Gosto de uns filmes e não gosto de outros. Basicamente é isto.

Contudo, tenho tido alguns convites para entrar no mundo do cinema de autor, através de encontros que as pessoas do meio organizam, para assistir a películas de culto restauradas que já passaram no Canal Hollywood vezes sem conta. Não julgo, porém, acho que 7 euros por um bilhete para ver um filme que andou a rodar os canais todos é quase o mesmo que apanhar um taxi quando não estamos atrasados para o trabalho, e nem sequer está a chover. Mas adiante. 

No Cinepop vi o Trainspotting, que adoro e, mais recentemente, o ET. Sim, qualquer dia estou a rezar para que o Sozinho em Casa seja a escolha do Monumental para o dia de Natal. Curiosamente, e apesar de ter adormecido durante breves minutos durante este sucesso de bilheteiras, algo que não me fez sentir muito mal dado que a pessoa com quem estava também resolveu fazer uma soneca singela no escurinho, posso dizer que foi muito gratificante. Para já, não me lembrava do momento em que o raio de extraterreste apanha uma bezana e encarna um mitra do Europa, depois, já não via a Drew Barrymore num filme decente há mais de duas décadas. Compensou.

Do Kusturica, também a cargo da missão “Vamos lá ser eruditos da sétima arte” vi o documentário do Maradona e o Via Láctea que conta com a participação da belíssima Mónica Bellucci. Posso dizer que, por muito drogado que o Maradona tenha sido, com esta longa metragem o Sérvio conseguiu dar-lhe vinte a zero. Suspeito que  tenha aviado pelo menos uma folha de ácidos de olhos fechados. Parabéns Mónica por ser quem és mas, amiga, ou começas a cuidar da tua carreira ou vais viver em Portugal para sempre. Não queres isso, acredita. 

Para terminar, ao Nimas fui ver uma obra de Polanski,  The Fearless Vampire Killers e gostei bastante. Apreciei o sentido de humor, a prestação do querido pedófilo enquanto ator, e, finalmente achei interessante o enquadramento que o Filipe Melo fez do filme.

Ah, e falando de enquadramentos, sabem que nestes círculos há sempre uma pequena contextualização feita pelo cinéfilo-mor da sala?  Estou a ficar tão habituada a uma introdução antes do filme que quando for ver o Saw XX em 5D vou pedir ao homem da bilheteira para dizer umas palavrinhas antes da coisa começar.

Acho que é o mínimo.

Love,

D.

Diva e os “Pesentes” de Natal

Apesar de não adorar o Natal, de estar claramente cansada dos amigos secretos, ocultos, misteriosos, e dos mil e um jantares que acontecem como se fôssemos morrer amanhã, conto ser presenteada pelos meus amigos e familiares mais próximos.

E, por ser uma mulher prática e bem resolvida, decidi colocar aqui a minha lista de “pesentes” de Natal:

Uma empregada doméstica

Não é assim tão caro e dá-me imenso jeito. Além do mais é uma prenda prática. Escusam de se aborrecer à procura do pijama mais foleiro da Primark e de lidar com aquela multidão de primitivos da linha de Sintra, famintos por meias e cuecas a 1€.

Um bebé chinês 

Como encontrar o pai dos meus filhos está complicado, agradecia imenso que me oferecessem um bebe chinês pelo Natal. O meu instinto maternal começa a apertar e não há nada mais amoroso que um bebé sem olhos. Por outro lado, são um investimento. Fazem muito sucesso nas redes sociais quando são obrigados a dançar frente a uma camera e aos 9 anos já estão bons para trabalhar. Alguém tem que ajudar nas contas lá de casa, não?

Um Singstar com métricas que avaliam a perfomance em palco.

Este jogo tira-me do sério. Não consigo compreender como é que podemos ser avaliados unicamente pela voz. E a presença em palco? O carisma?! Acho absolutamente indecente e não vou mais brincar a esta palhaçada. Quase de certeza que no Japão já pensaram nisto. Seria uma bela surpresa para animar a família mas, sem regras dignas, estou fora deste jogo de cobardes.

 Uma chaves de casa extra

Parece despropositado mas não é, acreditem. Ando há mais de 1 ano para fazer umas chaves suplentes e nunca tenho paciência para cumprir essa tarefa. Acho que seria para lá de simpático receber este “pesente” de natal. Chega de viver em pânico sempre que não ouço aquele tilintar à porta de casa.  Chega de ter pesadelos com os Bombeiros e com as Chaves do Areeiro. CHEGA!

O James Franco.

Não custa sonhar, pois não? ❤

Feliz Natal Divas.

Love,
D.

Diva no Amoreiras.

Raramente vou a um centro comercial. Prefiro o comércio de rua e não tenho paciência para andar a fintar carrinhos de bebés que andam a 50km/hora e pessoas camufladas com sacos da Primark até à testa. Prefiro o meu querido Chiado, e também a Baixa, para ver como andam as modas.

Acontece que agora, encontrando-me a trabalhar ao lado do Taj Mahal do Taveira, torna-se praticamente impossível não dar um saltinho ao Amoreiras de vez em quando. E de todos estes sanguessugas que nos levam a carteira, sempre o tive como sendo tranquilo e bem frequentado. Simplesmente nunca pensei que esta obra comercial, das mais antigas catedrais do consumismo em Lisboa, fosse tão concorrida à hora de almoço. Ingénua, bem sei.

Para quem já tem fome às 11h, pareceu-me que 13h era uma boa hora para forrar o estômago. Errado, minhas queridas. A celestial uma da tarde, o timing tido como o mais adequado para a segunda refeição do dia, recria naquele espaço o Apocalypse Now. Mas sem napalm. Infelizmente.

Perante a confusão iminente pensei,  vou comer algo rápido para ter tempo de  ir à minha querida Zara depois. Como tal, dirigi-me de forma confiante à zona da restauração onde em todos os espaços, sem exceção, se formavam filas maiores que as da Expo ´98.

Executivos novos, velhos e “assim-assim” babavam de fome perante tudo o que vendia carne com batatas fritas, precisamente o que me apetecia, enquanto que as betas da Vieira de Almeida e arredores, berravam umas com as outras nas filas para tudo o que vendia alface com merdas. Incrivelmente percebi que o local mais desempoeirado da região era o famoso Mac. Os pobres ali têm pouca saída e a betalhada não gosta de ser vista a comprar nuggets a 1€. Já com a missão “conseguir comida” bem sucedida, só me faltava encontrar um lugar simpático para morfar o meu Big Tasty.

Casaco à cintura, mala ao ombro e tabuleiro em punho, lá fui eu procurar um cantinho. Como já não devia meter um pé no Amoreiras há mais de 1 ano, parecia uma saloia à procura de mesa. Diz que meteram uns espelhos novos e, com tonalidades entre o bege e o camel (para agradar aos visitantes que, além destas cores, só usam preto em ocasiões especiais) eu dei por mim baralhada, a tentar descodificar o que era espaço físico do seu próprio reflexo. A minha cabeça, com fome e meia zonza, só recebia sinais de gravatas, malas da Bimba y Lola e madeixas mal amanhadas.

Já cheia de calor a enfrentar uma possível quebra de tensão, absolutamente desorientada nesta espécie de labirinto executivo durante uma eternidade, percebi a dificuldade atroz que é encontrar a cadeira vazia neste jogo. Os queridos e as queridas, também à procura de um recanto, entoavam gargalhadas sobre a festa do Jezebel mesmo atrás da minha pessoa, enquanto batiam suavemente com os seus tabuleiros nas minhas costas. Com a testa a transpirar, percebi que a minha visão atravessava um cenário cada vez mais turvo, as minhas pernas, passo a passo, ganhavam mais 30 kgs e, quando um rasgo de lucidez recaiu finalmente sobre o meu corpo a fim de me travar daquele loop, tinha um pé praticamente submerso num lago interior spé decorativo. Parece mentira mas é verdade. Estive a 2 cm de molhar a pata ou, quem sabe, de tentar andar sobre a água, tal era o LSD que aquele caos despertava nas minhas veias. “Acordei” com 4 pinguins estupefactos a olhar para mim, como quem olha para o maluquinho que lança malabares quando o semáforo está vermelho. Ou encarnado, perdão.

Como tudo na vida tem um propósito, depois deste momento de insanidade levado a cabo pela multidão, e também pelo cheiro libertado pela comida de todos os franchisings do mundo, consegui um lugarzinho ao sol. Ou melhor, ao lado de uma senhora de idádi que, curiosamente, se lambia com um sundae de caramelo. Respirei fundo, pousei a tralha e mais descansada realizei que chegara o momento de comer. Feliz da vida abri a caixinha de Pandora da Fast Food e lá dentro ainda reluzia um maravilhoso manjar XL. Pena que assim que resolvi iniciar a prova, realizei que não é preciso muito tempo para que as fofas das hamburguesas do Sr.Ray Kroc entrem em decomposição, ficando mais rijas que as amêndoas do Algarve.

Deprimida com a minha refeição digna de um verme sem noção, ainda pensei gastar 5 paus para conhecer o miradouro mais recente da cidade. Mas nem isso. Diz que fecha à hora de almoço já que os turistas também comem à mesma hora que nós e os tugas conhecem bem a vista.

Depois disto, nem tempo tive de ir ao WC quanto mais para ir ver trapos.

Uma pena.

Love,
D.

Diva troca LIS-BON pelo Ouriço.

No fim de semana passado recebi um convite para o LIS-BON – Jardim Sonoro, festival de música de dança que acontece no Parque Eduardo Sétimo.

É um evento engraçado que se prolonga durante a tarde e que normalmente se esgota com os “Fusers”, “Bloopers” e “Brunchers” deste país. Neste caldeirão eletrónico juntam-se também alguns cromos da publicidade e magníficas figuras públicas, daquelas a quem eu às vezes digo “olá” por achar que as conheço do “café”.

O Jardim Sonoro está entre as festas favoritas dos ravers contemporâneos, esses seres mágicos, urbanos, mestres dos filtros Instagram, detentores dos fantásticos óculos de Sol da Moov Shop, com vidas sociais ativas, incrivelmente sedutoras e bem sucedidas. 

Estarei iludida? Creio que não.

O que é certo é que troquei tudo isto (e reparem que não foi pouco) por uma noite na Ericeira. Esta é que é a verdade.

Mas passo a explicar.

Tratava-se do aniversário de uma amiga, nativa da região com o micro-clima mais peculiar da estremadura, que resolveu fazer uma festinha regada com vinho verde, comidas saborosas e uma piscina onde as ressacas se curam com banhos de glamour. Uma festa que começou à tarde e que continuou pela noite dentro, não estivessem os convidados mortinhos por um pezinho de dança.

A Ericeira tem graça. Os bares são sui generis, com pinta e passam sonoridades entre o hip-hop e os 80´s. As ruas do centro noturno enchem-se de turistas, gente da terra e alguma miudagem. A maior parte são surfistas, essa raça geralmente bem-apessoada e bronzeada cujo género literário favorito é o Wind Guru, o filme de culto está na seleção do Beachcam  e o lema de vida, o profundo slogan “Destrói as Ondas não as Praias”. Quase me afogo com tamanha profundidade.

Já com o roteiro dos bares feito, algumas capirinhas e capiroskas no bucho, fomos direitos ao ex libris da Ericeira:

O Ouriço. 

A discoteca mais antiga da Península Ibérica.

Com 55 anos de existência, este espaço conta com um pé direito inferior ao da minha casa e com uma ventilação digna de uma ventoinha de bolso.

Assim que entrámos neste Club, (adoro este termo, acho super New York) um calor insuportável, misturado com cacimba humana, levava o nosso organismo ligeiramente alcoolizado para perto de um coma profundo. Sobre a música, era tão boa que preferia ouvir a estação de rádio de Oliveira de Azeméis até à eternidade. Porém, como o espaço é mítico e o grupo estava divertido, resolvi dar uma oportunidade e muito rapidamente já dançava e cantava emocionada, fingindo que sabia os lyrics. Estranha forma de integração esta de palrar músicas que mal conhecemos, não é? Atire a primeira pedra quem nunca o fez.

A dada altura, não indiferente ao cansaço, já revirava os olhos dando sinais de que estava a entrar nas últimas. Um amigo, daqueles para quem a noite ainda agora começara, percebeu o meu estado de derrota e, por considerar que podia ser um elemento dissuasor contra a festa, resolveu gritar na minha direção:

– “DIVA, TENS QUE TER PACIÊNCIA!”  

ou seja:

“Aguenta-te pois vais ter que papar mais 10 espanholadas, 5 hits do top Orbital, 3 cromos a pedirem-te cigarros em troca de perdigotos e… sabe Deus.”

Apesar de cansada, acabei por me converter ao espírito do grupo e dirigi-me ao WC para ganhar forças e regressar à Pista de Verano. 

Mal integro a fila das meninas aflitas, percebo que estou ao lado de uma Diva, a quem o Sol já queimou algumas camadas valentes da pele, claramente com os copos mas com uma atitude digna de vedeta da TV 7 Dias. Aparentemente cliente da casa, trazia uma espécie de rabo de cavalo de lado, um vestido curto preto e umas pratas que lhe envolviam o pescoço. Com as suas costas exercia pressão para fechar a porta do WC, não permitindo que a confusão se gerasse ali dentro, ao mesmo tempo que alçava uma perna sobre o lavatório, com a naturalidade de quem pousa um cotovelo na mesa durante a sobremesa.

Instintivamente percebi que estava perante a Rainha da Ericeira.

Em 3 tempos meteu conversa comigo e tentou apurar o que fazia da vida. Antes de lhe responder, fui atropelada por uma amiga que, com ar confiante e determinado, lhe disse na minha vez:

– Ela tem um BLOG! – Confesso que me deixou lisonjeada.

Senti-me obrigada a dizer que essa não era exatamente a minha profissão e, sem lhe dar grande atenção, fui colaborando com o seu inquérito das 5h da manhã. Apesar de ter apreciado o nome do meu ninho virtual, assumiu que nunca tinha lido nada meu, nem tinha ouvido falar em tal coisa.

Enquanto ela continuava a falar na minha direção, eu só tinha olhos para aquela perna alçada. Estava a deixar-me desconfortável e, portanto, pouco receptiva a esta amizade com a Nobreza do Oeste.

Não contente com a minha postura, aparentemente indiferente, começou a jogar alto para captar a atenção daquela que suspeitava ser a blogger do ano:

Rainha da Ericeira: Sabes que o sítio onde trabalho representa 4 blogs…? É uma empresa daquelas pequenas, que ninguém conhece…  Está no retalho e na distribuição… Só tem 36 lojas e representa 11 marcas, imagina… – e foi a primeira vez que a ironia me soou pior que uma cena de product placement da TVI.

Diva: Ah isso é ótimo. Mas de quê? – disse eu ao mesmo tempo que a minha amiga, defensora do meu talento e vocação, continuava a responder por mim:

Amiga defensora da Diva: “Ahh ela é muito independente!” – Como quem diz, “Ela não precisa dessas coisas…” (Eu? Nunca. Aliás, não tenho mãos a medir com os patrocínios que me chegam).

Rainha da Ericeira: É uma empresa pequena, com marcas desconhecidas…  De certeza que não conheces.- E assim continuava a Rainha da Ericeira, num loop irónico e tonto, sempre de perna alçada e cara de whiskey.

Diva: Pois sim, claro. Mas marcas de quê…?! – Respondia eu já sem paciência mas com alguma curiosidade.

Rainha da Ericeira: Essa é que é essa, não é…? – Oh Deus. Não tinha bebido o suficiente para isto, pensei. Ela estava mesmo picada. Provavelmente pensou que me estava a armar em Pipoca Salgada quando eu só queria fazer xixi.

A muito custo, e não querendo revelar o segredo desta querida, só vos posso dizer que acabou por afirmar que trabalha naquela marca de luxo do surf com um nome começado por “Ericeira”. Depois da revelação do misterioso graal, continuou a perseguir-me com tanta agressividade que tive que abandonar o barco para não levar uma pranchada. Não ando à porrada desde o 5º ano, senti que podia correr mal.

Despedi-me dela cordialmente e voltei para a pista onde estavam os meus amigos, ainda em êxtase, como se tivessem sido pagos pela CM da Ericeira para animar a malta.

Ainda pairava na minha cabeça o momento surreal pelo qual tinha passado. Teria eu acabado de desperdiçar o patrocínio da minha vida?

Logo eu, uma surfista em ascensão e fã incondicional dos trapos da Semente e da Billabong

Love,

D.

Diva vai ao Avante.

“Há festas e depois há a Festa do Avante”. Foi o que me disseram antes de ter decidido que iria pela primeira vez à reunião anual dos camaradas.

Tudo começa quando chegamos à Amora e percebemos que o Cacém nem é assim tão feio. Um calor insuportável (e entenda-se que cheguei pelas 19h e picos) acompanhava as famílias que, tal como eu, se dirigiam para a entrada. Na “bagagem” percebia-se que traziam garrafas de vinho, cadeiras, arcas e crianças em êxtase por poderem participar na festa dos crescidos.

No lugar dos betolas com ar de surfistas, que habitualmente validam os bilhetes nos festivais da moda, estavam homens com bigodes capazes de albergar gente, peles queimadas do Sol digno da Lagoa de Albufeira e barrigas inchadas da água-pé. Anfitriões de uma elegância absolutamente incontornável.

Assim que passei pelo detetor de esquerdistas, mas nem 10 segundos depois, fui atacada por um exército de melgas, de tamanho praticamente invisível, que em três tempos se alimentaram ferozmente de mim.

Já agora, um muito obrigada por me terem avisado que aquela merda é mais agressiva que o Comporta Café depois das 18h. Quando dei por ela, ainda nem uma jola tinha bebido e já me estava a coçar que nem um carocho. Portanto, situação nada “fenistilástica”.

Mas adiante.

Não fazia ideia do que a festa tinha para oferecer e até me surpreendi com os vários stands das regiões presentes, com iguarias da nossa gastronomia, desde os doces aos salgados. Não indiferente ao aroma das espetadas, aterrei na Madeira onde trabalhavam umas senhoras com muito bom ar e que não se fizeram rogadas quanto à quantidade de manteiga a espetar no bolo do caco. Comi um pica-pau bem jeitoso e bebi uma poncha assim para o potente.

O objetivo no Avante é um pouco isto. Comer e beber.

Beber que nem uma besta, ceder às comezainas para não perder forças, continuar a beber que nem uma besta. Isso até é fixe. E não, não é tão redundante assim. Todos sabemos que, com os copos, não há dois minutos iguais.

Ali joga-se ao campeonato do tinto. Quem for de INEM para casa, perde. Quem andar na Roda Gigante sem vomitar, ganha. Sim, os comunas também têm uma espetacular Roda Gigante. Fuck you Rock in Rio, seu capitalista.

Na minha humilde opinião, a magia desta festa está muito ligada ao público eclético que possui. Bad Boys meio azeiteiros, portadores de braços bem torneados e caligrafados, passeiam cães de raça geneticamente alterada, enquanto meninas com pinta Chapitô, sentadas à chinês na relva, enrolam charros com mestria.

Gajos com barbas mal amanhadas e t-shirts que em tempos foram das traças, também se cruzam com mães fumadoras compulsivas que gritam com os filhos de ouvidos mocos que se esfumam na multidão. Os comunistas são realmente uns fofos, desde crianças que estão habituados a fugir.

Sobre a música, senti que o cartaz podia ser mais aliciante mas não  esperava outra coisa. Uma curiosidade, Sérgio Godinho e Jorge Palma foram convocados. Estranho, nunca pensei. Outra ainda, Xutos e Pontapés. Também nunca me tinha ocorrido. Quem diria? De ressalvar a triste notícia sobre Rita e o Revólver que queria muito ver mas acabei por não chegar a tempo. Ou seja, nem em lazer consigo cumprir horários. Incrível.

Também assisti a um recital de poesia no espaço Alentejo com algum potencial, não fosse a senhora estar a declamar com o mesmo tom com que se apresenta o mote para as Autárquicas. Apesar da determinação evidente da oradora, o seu público era constituído maioritariamente por senhoras didádi  que já não se aguentavam nas canetas, nem com os olhos abertos. Como tal, faziam “discretas” sestas ao luar, sentadinhas nas suas chaises longues de sisal. Cadeiras estas que já devem ser gajas para mais de 20 Avantes.

Pessoas abraçadas, e muito bêbadas, a cantar  “Avante, camarada, Avante (…)” também foram uma constante. Não fosse eu uma lamechas, até achei bonito e me emocionei (ou não). Sugiro que experimentem dar 2 litros de tinto a um gajo do CDS e lhe peçam para cantar Mafalda Veiga. Duvido que faça igual brilharete. Mas duvido mesmo.

Algo sobre o qual não podia deixar de falar, precisamente porque representa o auge da festa, é a bela da “Carvalhesa”. Quem já lá foi, sabe bem do que falo. É a descompensação total. Velhotes, jovens e crianças, quando ouvem o hino do seu partido, perdem as estribeiras e desatam a correr em direção ao palco para dar tudo numa dança frenético-moribunda. Bem sei que parece antagónico mas é o termo que se aplica. No fundo, enquanto as cabeças dos camaradas pensam que estão a celebrar a sinfonia vermelha com a elegância, e atitude revolucionária, do charmoso Che Gevara, os seus movimentos corporais só nos lembram Jerónimo de Sousa numa performance contemporânea regada com 5 bagaços.

Quando achamos que o período de libertação comunista (a própria da Carvalhesa) está a chegar ao fim, eis que do palco partem fogos de artifício imponentes que levam os camaradas à loucura generalizada.

Eu permaneci sentada e surpreendida a observar a multidão. Nunca tinha visto tal coisa. Sentia que estava a presenciar uma espécie de fenómeno sociológico com os dias contados. De repente fui transportada para um ritual ayahuasca organizado pelo Bloco de Esquerda. Estranhamente interessante.

Não posso ser aldrabona e dizer que não senti nada. Aquilo, de alguma forma, até mexeu comigo.

Se depois desta explosão de emoções me metessem uma mesa de voto à frente, era gaja para votar 3 vezes.

Avante Camarada, Avante.

Love.

D.

A Avó da Diva – Parte II

Maria Idolinda, de nome peculiar e tão adequado à sua singela fisionomia, não alcança um metro e cinquenta de altura, apesar de ser uma mulher extremamente “elevada” como refere habitualmente sobre si mesma, sem grandes modéstias. Tem 81 anos, um corpinho de 65 e uma cabeça de 30.

Mariazinha, como os conhecidos do bairro a tratam, diz-me coisas incríveis como “Se soubesse o que sei hoje, nunca me tinha casado com o primeiro” ou “Imaginas-me num lar de velhos a fazer desenhos com lápis de cera?” ou  ainda “Tu és linda mas esse cabelo não lembra a ninguém, não dá para esticares isso, filha?”

Respondo-lhe sempre (mas sempre) que de “peruca” alisada pareço um rato à chuva mas ela não compreende as minhas motivações e fica para lá de revoltada. No fundo, apesar de duros, eu valorizo bastante estes seus inputs. Demonstra que vê em mim um imenso potencial por explorar. Potencial este onde o cabelo toma uma importância absolutamente fulcral. Ela lá terá os seus motivos…

Por outro lado, também é mulher para me dizer, com olhar de quem finalmente acabou de compreender a teoria da relatividade:

“És de uma classe e de uma inteligência extrema, filha.”

Assim do nada. Tau!

Fico toda vaidosa e inchada.

Mas, egos alimentados por avós à parte, vamos ao que interessa.

No outro dia, estava eu num jantar de aniversário de um amigo, bebendo um vinho branco fresquinho e mordendo um porco agri-doce quando, de repente, percebo que tenho uma chamada sua não atendida por volta das 23h50.

Estranhei a hora tardia, naturalmente, e no imediato devolvi o telefonema mas sem sucesso.

Sei que, pelo menos até às 23h, Mariazinha relaxa no seu colchão que lhe custou uma fortuna, e por ali fica a ouvir o “Culto” que passa diariamente na sua estimada rádio evangélica. Estação complicada de permanecer na frequência certa visto que, à mais ligeira brisa que incentive a antena para a esquerda, já a fiel ouvinte se vê obrigada a girar o botão durante horas, em pânico, e a pensar que perdeu para sempre a “palavra de Deus” na espiral das ondas eletromagnéticas.

No momento em que, já jantados, todos se organizavam para um copo no Bairro Alto, eu fervia de preocupação a pensar no pior que podia ter acontecido à minha baixinha. Mas como é que ela me liga a uma hora destas e passados 10 minutos já não atende?!

“Sentiu-se mal, ligou-me em desespero e caiu para o lado” – disse alto.

Neste estado de ansiedade não havia nada que me pudesse divertir e, assim que vi um táxi, fui direitinha à sua casa. A minha querida Diva Loira resolveu acompanhar-me, não só porque me conhece e percebeu que estava realmente apoquentada, mas também porque é fã desta castiça.

Chegadas à porta de sua casa, incumbi o meu indicador nervoso de pressionar o botão do seu andar, como se estivesse a carregar pela minha vida. Mas nada. Acordei o prédio todo. Vizinhas da sua idade, incomodadas com o som ensurdecedor daquele toque digno de prédio com mais de 100 anos, vinham curiosas à janela. As minhas mãos já transpiravam e os meus olhos reviravam até que o meu inconsciente me lembrou:

 “Espera, ela deu uma chave ao vizinho que vive na cave…”

Depois de nos deixarem entrar no prédio, fui bater à porta do senhor, como se estivesse a encarnar um polícia de intervenção. Lá veio o vizinho, de boxers, tronco nú e cara de quem não gosta de ser acordado. Percebe-se. Primeiro não me queria dar a chave, coitado estava a dormir em pé e não percebia nada do que o rodeava. Mas depois, perante o meu nervosismo e inação, a minha Diva Loira lá lhe deu um berro e ele finalmente passou “o anel” para o nosso lado.

Já com as chaves a tilintar nas mãos, subi as escadas e finalmente bati com as pontas dos pés na porta da minha querida avó. Ainda toquei à campainha novamente mas mais uma vez… Nada.

Respirei fundo, fiz de mim invasora e, de mãos trémulas, entrei.

A minha companheira de sempre ficou para trás. Quis dar-me alguma privacidade num momento em que ela própria já temia o pior.

Após 5 lentos passos já estava no seu quarto. No escuro, via o seu corpo estendido na cama imóvel. Não ouvia a sua respiração e passei a sentir o frio digno do psicológico que interfere com a atmosfera.

A medo, finalmente sussurrei:

“Vó…Acorda…!”

N-A-D-A.

Aproximei-me dela, já apavorada com o que podia acontecer e gritei (confesso que já a chorar…)

“VÓ!!!” ACORDA, FODA-SE!!!”

Saiu-me em total desespero.

O que é certo é que, finalmente, a Diva Mor virou o seu tronco muito calmamente, olhou para mim de olhos sonolentos e disse:

– “Ai filha, és tu… ? Olha, ainda bem que apareceste. Precisava mesmo de falar contigo”.

E realmente precisava, coitada. Tinha uns sapatos novos incríveis para me mostrar e portanto até lhe deu jeito que lá passasse, imaginem.

Ainda achou um pouco ridícula a minha preocupação.

“As pessoas quando dormem profundamente não ouvem campainhas, filha…”

Enfim, ia morrendo de susto.

Love,

D.