Diva e a Amiga Colega.

Hoje tenho uma amiga que primeiro foi colega de trabalho. Mal a conheci percebi que fumava e, com um propósito oportunista, apreciei o potencial de companhia para as pausas. Era alta como eu e tinha uma mancha no lábio, tal como a minha, e no mesmo sítio. Curioso, pensei.

Depois senti que, no meio de alguma timidez, existia uma vontade sua de transformar as pequenas oportunidades em piadas. O ar com ela era leve, como procuro sempre em quem me rodeia. Fiquei atenta.

Um dia fomos almoçar para testar se esta relação que os colegas criam à “hora de almoço” podia resultar entre nós, e ela, por azar, não foi bem atendida. Sentiu-se desrespeitada, com razão, porque serviram a esplanada quase toda antes de si, e nem umas azeitonas lhe deixaram para forrar o estômago. Sem muitas demoras, deu o último golo da sua imperial, um par de berros (educados) ao empregado negligente e partiu de óculos de sol postos, deixando para trás um grupo de seguidores famintos que não tiveram a sua audácia. E foi assim que percebi que esta espécie de Diva da restauração podia ser minha amiga.

Mais tarde, contou-me que o seu pai era chef de cozinha e que, desde miúda, foi habituada a fazer avaliações criteriosas aos locais onde vai comer. No fundo, tornou-se mais exigente. Também é por esta influência que verbaliza termos com sauté para designar o que para mim é uma simples frigideira, e traz souflé de pescada para o almoço, dentro de um tupperware, mas com muito requinte. Ela gosta de comer e insiste amavelmente em partilhar comigo as melhores iguarias que traz, desde a lasanha feita pela avó, ao risoto incrível de cogumelos de autoria do pai. (a quem aproveito para agradecer). Eu trago duas vezes por semana salsichas de aves muito mal amanhadas com legumes e, portanto, valorizo uma refeição digna e sofisticada. Sabendo disso, ela alimenta-me com amizade.

Aos poucos, fui vendo também que tem um sentido apurado de estética, que gostamos das mesmas cores, tendências de trapos e que tem paciência para me acompanhar durante dias infinitos na procura de um casaco de inverno, como o último que só consegui comprar à vigésima vez em que fomos às Amoreiras. E na primeira loja onde entrámos 20 dias antes. Nada me ficava bem, ela compreendeu isso sem ansiedades.

Mais importante do que tudo, gostamos de contar histórias de Amor. Nossas, de amigos, sempre sem maldade, só mesmo pela partilha de novelas inspiradoras, e sem nomes. Nem interessam.

Apesar de ouvir músicas foleiras nos seus phones, que de vez em quando não resiste em cantarolar a meio do trabalho incriminando-se sem pudor, percebi que ela é muito mais do que a Rihanna que ouve.

Temos vindo a concluir, com alguma frustração, que a música não é de todo o nosso elo mais forte. Mas não tem mal. Ela ouve hip-hop, incluindo o tuga, o que eu acho quase inacreditável. Eu, no seu ponto de vista, gosto de música de hipsters. Não é inteiramente verdade mas compreendo que, perto do Valete, somos todos alternativos. Mesmo assim, ouço os hits que partilha comigo para lhe dar uma chance. E ela ouve os meus para me fazer a vontade.

A verdade é que, às tantas, com o passar do tempo, já podia gozar com ela e ela comigo. Já partilhávamos intimidades, segredos e até algumas lágrimas.

Podia ser uma história qualquer, sobre uma qualquer colega de trabalho que se transformou em amiga, está certo.

Mas esta é sobre a minha e eu gosto muito dela.

Love.
D.

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Diva vai ao Bingo.

Andava há muito tempo para ir ao Bingo. Lembro-me de lá ter ido parar uma vez mas confesso que não guardei grande memória. Recordo-me apenas de ter bebido uns copos que me foram oferecendo, enquanto um amigo surtava completamente porque não ouvia os números que iam sendo ditados, dado ter perdido a conta às amêndoas cada vez mais amargas que bebera.

Agora, mais recentemente, fui viver a dita experiência em pleno. O meu querido parceiro no crime, e em muitas coisas mais, queria há muito iniciar-me nesta jogatana, tentando, para o efeito, aliciar-me com as sangrias  e os jantares grátis de incentivo ao jogo. Eu, fraca, acabei por ceder.

O escolhido foi o “Bingo Belenenses”. Situado estranhamente no Saldanha, e não em Belém, auto-intitula-se como a maior casa de jogo em Lisboa. E acredito que seja.

Assim que lá chegámos, fomos recebidos por um senhor muito bem parecido, de fato, que gentilmente se ofereceu para guardar os nossos casacos no bengaleiro. No hall de entrada, via-se uma máquina de tabaco, uma caixa multibanco e um sofá para aguardarmos enquanto não se podia entrar. Há regras nestas coisas mas também muitas mordomias para nos sacarem dinheiro com simpatia.

Assim que a nossa hora chegou, o dito mordomo abriu as portas e, no meu campo de visão, entraram dezenas de mesas redondas acompanhadas por uma nuvem de fumo, enquanto que, sobre um chão alcatifado, caminhavam elegantes empregados que empurravam velozmente carrinhos de bebidas coloridas em flutes. Calma, parece mais chique do que é. Uma coisa boa, nesta sala podemos fumar em cima dos velhotes moribundos que ninguém nos diz nada.

Mas bom, já sentados e a esfregar aos mãos, começaram a entregar-nos os cartões. Agarrei-me à caneta, e de repente, muito rapidamente, estava no meio de um jogo de Totobola em que a bola era eu. Inexperiente, não conseguia perceber mais de três números seguidos e a cada cruz que marcava, ficava tão nervosa que me esquecia de pelo menos dois. Foram três minutos de pânico sem ver luz neste enigma aleatório.

Conscientes de que tudo é uma questão de hábito, seguimos para mais uma ronda. Novo cartão em cima da mesa, caneta pública na boca, siga para Bingo. Mais que atenta nesta nova etapa, já a patrulhar a minha própria atuação como se estivesse no exame nacional de Matemática A, percebi que marcara o penúltimo número de uma linha. As minhas mãos trémulas começaram a transpirar, a minha boca a salivar, a minha pupila claramente a aumentar de excitação, quando o improvável, aconteceu:

Senhora Funcionária do Bingo ao microfone: 22. Dois e dois.

DIVA a dar tudo no jogo: “LINHA!” – Gritei bem alto, com o entusiasmo que só uma principiante consegue transmitir. E para lá de louca, olhei para o funcionário mais próximo de mim, na esperança que me correspondesse com felicitações. Mas não.

Empregado Elegante, abanando a mão: “Já foi menina! Só se faz linha uma vez!”- Em modo sussurro para não me humilhar mais do que eu própria havia feito.

Desiludida mas persistente, continuei sem pudor. Mas, antes disso, tirei três segundos de folga para olhar para o meu parceiro. Ligeiramente envergonhado pela minha precipitação, estava verde de ansiedade, sem conseguir focar-me nos olhos, enquanto organizava as moedas para a próxima dose. Ele que é um papa cigarros, dava apenas breves passas no seu Marlboro para não afetar a sua prestação.

Já novamente imersos naquele caos sonoro de números, havia sempre um cabrão que gritava “LINHA” antes de nós, e outro, um esterco ainda pior, que gritava BINGO! Sentimentos dignos de um psicopata começaram a afetar a minha alma habitualmente amigável. Já transpirava inveja e ódio pela testa. Estas vozes vencedoras, que naquele momento personificavam a felicidade e o sucesso, faziam-me dar murros na mesa e pontapés discretos na cadeira do lado. Atitude sem grande fair play, assumo.

Os cartões continuavam a surgir pelas mãos destes empregados maléficos como se estivéssemos a caminhar suavemente para o Inferno das probabilidades numéricas. Já em psicose, e a sofrer por antecipação, começámos a partilhar a sorte no mesmo cartão, como quem divide uma batata em tempos de fome e guerra, tudo pelo receio de não ouvirmos devidamente os números.

“Quatro olhos veem melhor do que dois” – dizia-me o meu mais que tudo, com cara de quem está a passar por uma ressaca de metadona. Eu acenava com a cabeça, numa espécie de sonambulismo induzido e riscava, riscava…

Foi preciso cerca de meia hora, e vinte euros, para realizarmos que o nosso estado de lucidez partia a cada bingo que os outros concretizavam. Estávamos tensos, cansados, mais pobres e, claramente, mais nervosos.

Não fomos feitos para esta neurose.

Partimos e dissemos um para o outro: “Nunca mais”.

Dois dias depois estávamos no Casino.

Love,

D

Diva vai ao Pop Cereal Café.

Não sei se as minhas queridas Divas estão a par mas há um spot no Bairro Alto, o Pop Cereal Café, onde a especialidade são cereais com tudo e com todos. Sim, cereais, daqueles que se juntam ao leite sempre que não há paciência para encostar a barriga ao fogão. Tão típicos do pequeno-almoço, ainda que para mim este conceito se adapte a qualquer hora do dia dado que janto torradas com frequência, estes singelos pedaços de açúcar, disfarçados de flocos, fazem um verdadeiro brilharete por estes lados.

Domingo, ligeiramente de ressaca, pareceu um bom dia para conhecer este lugar deveras americanizado e, de Zomato instalado para a review que se seguiria, demos o corpo ao manifesto. Não seria eu a autora da review, naturalmente, pois tenho mais que fazer do que criticar restaurantes num site que não me traz quaisquer views.

Mas continuando…

Ao entrar no referido espaço, cuja afluência imaginava ser uma cambada de erasmus que nem camping gaz tem em casa, o que estranhamente não se verificou, senti logo o Pop que lhe dá o nome. Posters, tendencialmente Andy Warhol mas comprados na Arte Periférica, na melhor das hipóteses, cobrem as paredes dando-lhes vida e cor. Sim, é muito para isto que serve a Pop Artou estarei equivocada? Mesas às bolinhas, umas altas, outras baixas, assim como um beliche para os mais ousados, convidam-nos a relaxar e a enfardar como se, de repente, acordássemos com 8 anos no sofá dos nossos pais, a contar os minutos para os Ursinhos Carinhosos. (Oh… que nostalgia me deu agora, não eram adoráveis estes sacaninhas?)

Algum merchandising à venda, muito american type of art, que felizmente eliminou as sardinhas que já ninguém aguenta, também compoe a decoração da coisa. Ao fundo, encontramos um balcão e uma estante repleta de caixas de cereais que bate a léguas o corredor do Continente do Colombo destacado para o produto. Amantes de comida juvenil, ou apenas solteiros desesperados por qualquer coisa que alimente, vão gostar disto. Não está mal decorado, resultou num bar simpático com um cheirinho a High School.

Assim que entrei, vi dois rapazes atrás do bar. Um na frontline da receção ao cliente, e outro a dar tudo num escadote dançante focado em alcançar, muito possivelmente, os Corn Flakes sem glúten que se encontravam nas alturas. Uma espécie de performance que me impressionou e que conceptualmente caracterizei entre o Cirque do Soleil e o Disney Club.

Contudo, os meus olhos não conseguiam desfocar do mestre de cerimónias. Rapaz magro e moreno com uma argola no septo, cantarolava uma espécie de Bonga alternativo, deveras adequado à temática da casa, como se eu já não estivesse baralhada o suficiente por ter sido intrujada a ir comer cereais à rua.

Mas adiante…

Enquanto preparava os seus fantásticos cocktails de Estrelitas com Clusters, como quem elabora um fantástico Long Island Iced Teasorria para nós de forma acolhedora e muito amigável. Percebendo que estávamos com dificuldade em selecionar o que pedir, muito rapidamente nos indicou que escolhêssemos as sugestões da ementa, logo depois de nos ter saudado com um entusiasta “Bom dia Pessoal” ou algo semelhante ao que o Poupas diria aos seus amiguinhos, não me recordo bem. Sei que acabou por nos falar sobre este novo conceito de restauração tal como Sá Pessoa explicaria uma obra de foie gras a uma criança e nos alertou que o melhor seria ficarmos pelas miscelâneas pré-concebidas da ementa. Basicamente disse-nos, subtilmente, para não inventarmos muito se não o mais certo era sairmos de lá com uma diarreia. Correto.

Eu, decidida e emancipada, escolhi o King Coco (Drives me) Nut (reparem no trocadilho do copy, não é para todos) e o meu acompanhante, mais guloso e atrevido, ficou-se pelo o Heaven is made of Chocolate. Uma bomba de chocolate, apreciada unicamente pela minoria que ainda consome Tulicreme.

Já famintos e curiosos, restava aguardar pelas taças mágicas que o mais conceituado Barcereal de Portugal (apesar de acreditar que seja o único especialista na área em território nacional) confecionava, enquanto dançava alegremente uma morna daquelas que só passam na Rádio Oxigénio.

E eis que pouco tempo depois, as ditas chegaram à nossa mesa. Bonitas, a transbordar de ingredientes malaicos, as nossas refeições de 3.90€ foram bem recebidas e dignas de um 4 no Zomato, com direito a atendimento de excelência. De estômago semi cheio e diabetes a explodir, abandonámos o local dizendo um educado “Obrigada” que foi respondido, mais uma vez, com um carismático “Adeus Malta”. Sim, já não ouvia a palavra “malta” há algum tempo.

Pena que assim que saímos do Bueréré percebemos que o que nos apetecia mesmo, mas mesmo, era um pastel de bacalhau e um croquete. 

Cenas da vida.

Love,

D.

Foto: Público, Fugas.

O Roterdão faz anos Domingo.

Este Domingo dia 18, o meu querido Roterdão faz 1 ano que se reergueu, mais bonito e simpático. É por isso que queria deixar aqui razões de sobra para passarem por lá:

. É o único sítio no Cais do Sodré onde ainda têm a consideração de disponibilizar amendoins, pipocas ou batatas fritas no balcão. Eu tenho os meus mínimos e sim, preciso de um salgadinho para empurrar com a Imperial. Obrigada por perceberem isso.

. O bar mantém muita coisa originária dos anos 80, como os bancos à marinheiro repletos de histórias malandras e a fachada tão mítica da Rua Cor de Rosa. Já na pista, contamos com um espelho gigante que nos permite fazer coreografias absolutamente sincronizadas. Já lá orientei umas danças em grupo melhores que muitas aulas de Zumba. Depois de uns copos, também é sempre bom termos acessível o nosso reflexo para sabermos se o suor ainda nos mantém decentes, de cabelinho composto e sem o eyeliner na testa. Acontece-me algumas vezes e, como tal, já não papo mais do que 1h sem verificação facial.

. No Roterdão encho a barriga com os meus hits favoritos. Ao contrário da maior parte dos bares das redondezas, ali 80´s não significa Bryan Adams e Samatha Fox. Vamos mais longe e com mais classe. Acreditem em mim, cheguei a invadir a cabine do Oslo para ver, com os meus próprios olhos, o que habitava naqueles arquivos. O melhor que lá encontrei foi o primeiro álbum das Spice Girls. Não tive outra opção se não pedir o 2 become 1. Triste mas verídico.

. O porteiro é uma espécie de Richard Gere mas careca. Também ligeiramente mais baixo. Vá, talvez não seja assim muito parecido. Mas tem os olhos dele. Nos dias que correm já não é mau. Tenham paciência.

. Mesmo quando está cheio, temos espaço de sobra para respirar. São dois pisos à nossa disposição onde passam sonoridades entre o rock, pop, funk e soul. Ao contrário do Jamaica onde cheguei a aterrar no colo de um senhor que estava de cadeira de rodas. Como não se cansavam de me empurrar, queimar, seduzir e maltratar, não tive solução se não cair no colo do único gajo que, pelo menos, estava sentado. Menos mal.

. A querida Ana, gerente, sempre que lá vou oferece-me uma Tequila Gold. Até já sabe que gosto de acompanhar com laranja mas que dispenso a canela.

É só por isso que escrevo este texto…

Vá, não é nada.

Eu vou lá estar a “dar tudo” porque é um dos meus spots favoritos.

Bora.

Love,

D

Diva vai ao Boom Festival

Começando pelo início porque a história é longa, fazer a mala para o festival do meu coração é algo que parece muito simples. Mas não é. O campismo, o calor que nos espera, as formigas que habitam o local e que padecem de gigantismo, a dor de costas habitual que exige cuidados extra e claro, as ressacas contínuas que estão na previsão de uma vida na Boomland, obrigam-nos a fazer um cálculo acertado sobre os indispensáveis a levar.

Como tudo o que exige um nível de organização acima da média interfere com a minha paz interior,  a minha querida amiga Diva Loira, como é habitual, ficou encarregue de todos os pormenores ligados à gestão da nossa estadia. Esta fofa, em quem delegámos o papel de decoradora oficial do camping, andou dias e dias em pulgas com todos os detalhes de estética e bem estar. Até fez questão de criar um grupo no whatsup onde partilhou as suas referências de decoração, com padrões visuais entre o Nature e o Zen.

Conclusão: Fomos carregados como umas verdadeiras mulas, com tapetes para a entrada, leds que se fundiram na primeira noite em que os deixámos ligados, uma mesa fantástica com banquinhos onde comemos uma única vez, um campingaz caríssimo que aterrou em Idanha-a-Nova sem o bico, portanto sem utilização possível, e até uns copos de vinho incríveis verdes a fazer pandã com a mesa que nunca viram vinho, visto que no recinto já bebíamos o suficiente. Ah.. e mais curioso ainda, ninguém se lembrou que depois das 21h30 surge uma imensa escuridão no camping e que se calhar era simpático termos uma luz na tenda, ao contrário de uma lanterna mixuruca que tivemos que revezar entre os 3 como se de água no deserto se tratasse. Claro que a nossa Gracinha Viterbo psicadélica alegou que o tema da iluminação não era da sua responsabilidade e deu-nos um grande “alô” visto não termos tratado de nada. Coberta de razão esta Diva.

Ainda mais brilhante do que as três viagens ao carro com 50º à sombra, que foram necessárias para acartar objetos de decoração e afins para a tenda, foi a de nos termos posto a caminho de madrugada.

“Vamos de madrugada, para não apanharmos o calor da tarde e assim, quando chegarmos, aproveitamos o dia! “- Disse alguém coberto de genialidade e claramente não se lembrando que existem coisas super modernas tais como: Ar Condicionado.

“Claro que sim” – Respondemos todos já sob o efeito da droga mais perigosa do mundo: A adrenalina.

Não há nada mais esperto do que ir com uma direta de avanço para tolerar uma estadia digna de um survivor. Também é fantástico montar uma tenda às 9h30 e, no momento em que o sol se alimenta de queimar o próximo, ser forçada a “brincar ao Twister” durante 4 longas horas. A cabra da Quechua afinal exigia um mestrado em National Geographic quando eu, muitas vezes, nem fogo com fósforos consigo fazer. Aleijam-me as pontas dos dedos, o raio dos palitos.

Não fosse a Diva Loira, perante situações de stress, transformar-se numa pessoa iluminada e desenrascada, ainda hoje estava em Idanha a enfiar a 2ª estaca na vista. Felizmente conseguimos montar a coisa e, infelizmente, o monstro em jeito de casa, por obra do destino, já tinha prometido ficar ao sol durante toda a estadia e no terreno mais inclinado que algum topógrafo pode alcançar. Mas não há nada que não façamos por amor. Ali, até adormecer deitado e acordar sentado se revela prático.

Tenda montada, coisas arrumadas, siga. É incrível como se sente uma energia intocável quando se passeia pelo recinto. As cores das tendas, das instalações, a música, as pessoas, a “La Goa” (uma Lagoa que nos transporta para Goa) os pés sujos e descalços, os casais apaixonados que se passeiam semi nus a apreciar a paisagem… é uma atmosfera verdadeiramente de paz.

Foram dias de glória sobre os quais tomei as seguintes conclusões:

Passadeira Vermelha do Boom

No Boom encontramos todo o tipo de pessoas. Freaks, Chantis, Psicadélicos, Marados e até Betos, (infelizmente os cabrões descobrem tudo e andavam por lá como se estivessem no Prego da Peixaria…) fazem parte da panóplia de malta que por lá se encontra. Pessoas normais são difíceis de detetar visto que muitas delas fazem questão de se “mascarar” para melhor se integrarem no espírito do festival. Vi de tudo. Até indivíduos que conheço de Lisboa, absolutamente banais ou aparentemente urbanos, lá carregavam perucas entrançadas, rastas coladas ao couro cabeludo, calças de licra com padrões psicadélicos, para passarem uma imagem de nómada do trance mas com algodão 100% e com botas a estrear. Desta vez senti que efetivamente existem muitas pessoas que dão tudo num look freak-festivaleiro. Meninas com rendas na cabeça a combinar com os vestidos, fitas com flores de todas as cores, lenços indianos, óculos de sol incríveis aos quais eu não resisto, biquinis de luxo e cremes que douram a pele mas que nunca na vida nos deixam parecidas com a Charlize Theron. Vi muitos modelitos interessantes e cabelos para lá de sedosos. Ao contrário do meu que durante 5 dias nem shampô viu. E do meu estilo absolutamente inovador que passou de um chanti negligé a um querolásabé. Mas a sorte é que o bronze faz milagres, a alegria dá um brilho aos olhos e a liberdade torna-nos mais sexy. Claramente que as Constanças e as Carminhos andavam por lá a desfilar peças exclusivas que lhes assentavam muitíssimo bem. Só faltava darem um beijinho quando se encontravam no Dance Temple, ao lado dos mamados que dançavam há mais de 24 horas sem pés e com fungos nos olhos. O Boom é dos poucos sítios que conheço, além do 49, onde a betalhada se sente ligeiramente constrangida, o que é ótimo.

Naturalmente que nem tudo é fake. Também conheci muitas pessoas que habitam na sua verdadeira pele e que, tal como eu, estavam a ser fiéis à sua personalidade sem precisar de gastar 100 euros na Mascarilha antes de ir para a Boomland.

Staff

Tenho quase a certeza que o Staff do Boom, antes de arregaçar as mangas para iniciar o trabalho, tem um workshop intitulado: “Como servir pessoal em LSD durante uma semana?” Uma das aprendizagens que adquirem, pareceu-me, é assumir precisamente o mesmo estado psicadélico dos restantes boomers. Passo a explicar: Num belo dia, quando comprávamos o nosso pequeno almoço, fomos incentivados por uma senhora sorridente e de olhos esbugalhados, que trabalhava num dos espaços da zona da restauração, a comer um naco de melancia com 2kgs com a ajuda de uma colher. De madeira. Tivemos que lhe dizer, de forma simpática e cuidadosa para que não tivesse uma bad trip in loco, que estávamos perante um desafio incontornável e que agradecíamos que cortasse a puta da melancia asap. É certo que ela provavelmente bebe leite de soja com um garfo e come quinoa com uma palhinha mas cada um sabe de si e o Xamã saberá de todos. Namasté.

Numa outra ocasião, uma amiga ao pedir ajuda na zona de informações para carregar o telemóvel, visto ser mãe e estar incontactável por quase não existirem tomadas disponíveis no recinto, foi aconselhada a “fazer amigos” no mercado que tivessem compaixão suficiente para a ajudar. “Faz amigos no Mercado, vais ver que te vão emprestar uma tomada!” – Disse a senhora espiritual do balcão de informações. Que amável.

Esta querida amiga (realmente não teve muita sorte) também assistiu ao desmaio de um estrangeiro que, com o Sol, perdeu os sentidos ao seu lado. Na esperança de existirem pessoas no festival dedicadas a resolver estes assuntos, aparentemente graves, foi ao encontro de um segurança que a ajudasse, ou seja, que levasse o raio do bife em desidratação para um posto médico. Eis que lhe respondeu:  “Vais ter que arranjar uns amigos para tirá-lo daqui pois neste momento não temos possibilidade de o ajudar, está tudo a quinar no Dance Temple.”  Lá está, o Boom Festival mais uma vez a propagar a amizade como solução para todos os males. Tanto misticismo chega a arrepiar-me.

Triângulo das Bermudas Psicadélico

No recinto são quase 40 mil seres de todas as nacionalidades e feitios a caminharem de um lado para o outro, uma multidão que também inclui pessoas que queres encontrar e com quem combinas mais de 20 vezes sem sucesso. É impossível marcar horas, agendar compromissos naquela região de estado de espírito. Eu mantive-me na linha onde lidera a máxima “eu não faço planos, nem cumpro promessas” e estive quase sempre sem bateria no telemóvel. Go with the Flow. Para dançar, ver o pôr do sol, rir, curtir com os amigos não precisamos de horas marcadas. Os amigos que encontrava por acaso, excelente, quem não encontrava, azarucho.

Por outro lado, todas as pessoas que, ao contrário destas, fazemos alguma questão de não encontrar tais como, colegas de trabalho, familiares afastados, ex namorados, ex situações amorosas da vida que simplesmente não nos apetece ver, pimbas… esbarramos com elas ao virar da esquina. E sempre nos momentos em que estamos prestes a ligar para a linha de apoio à dignidade pessoal, como sejam: rebolar na palha às gargalhadas, com galhos no cabelo, em topless, e tudo isto com aquela cara de quem não dorme há 24h. Obrigada Vida.

Mas existe o outro lado transcendental deste triângulo. Nós tivemos o prazer de conhecer o nosso 4º elemento no festival. O Diogo. O Diogo Incrível. Homem de estatura mediana, assim para o loiro, já era remotamente conhecido de Lisboa. Como é que percebemos que se tratava do nosso 4º elemento? Porque, sem combinarmos nada, o Diogo Incrível encontrava-nos dia a após dia das formas mais inusitadas. Sempre que resolvíamos repousar numa sombra com os corpos estendidos no nosso maravilhoso lenço étnico de tons terra, algures a relaxar e a beber cidra, surgia Diogo Incrível sozinho, procurando carinho e atenção. No fundo, em busca de uma família. Foi um elemento que acolhemos e que foi fundamental para a nossa diversão constante. Além do mais era uma peça trendy a acrescentar ao nosso trio pois possui um físico camaleónico que lhe permite um styling incrível. Com o seu lenço molhado a recriar uma espécie de Tuareg e calções de banho com um ligeiro rasgão, Diogo encarnou personagens entre o turista, o nativo e o mogli que fizeram as nossas delícias. Obrigada 4º elemento, não serás esquecido.<3

 

Homens – Avatares de Luxo

Parece estranho ter uma categoria com este nome mas não é, acreditem. Meninas que dizem que o homem português é muito jeitoso, por favor, mais noção. O homem tuga, no seio de todos os outros (Suecos, Alemães , Israelitas) é um mero anão de barbas. Percebi que Deus ouviu as minhas preces e me ofereceu 5 dias repletos de machos nas alturas, com mais de 1.90, troncos perfeitos e bronzeados, olhos rasgados, cabelos semi compridos, sorridentes e armados ó espiritual (mesmo que não sejam completamente genuínos, nós acreditamos que são iluminados e portanto apreciamos). Sonhos de carne e osso dos quais só acordamos quando, de repente, botamos a vista nas calças de Aladino que quase todos vestem. Verdade. Nada é perfeito nesta vida. Mas antes um Brad Pitt com calças-balão do que um Génio da Lâmpada com uma mochila Montecampo. Ali, até o israelita que trabalhava como cozinheiro na banca dos falafels, e que virava as fajitas ao lume, podia ser cara da campanha Viktor&Rolf. Eu quase me apaixonei por um destes avatares, de olhar escuro, cabelo desgrenhado e uma estrutura óssea que só podia vir de Marte. Acontece que o desgraçado andava por lá sempre todo nú e eu, a muito custo, cheguei à conclusão que ainda não estava preparada psicologicamente para virar a sua Eva. Ai que difícil é desprendermo-nos dos preconceitos da cidade. Sim, porque eu ao seu lado parecia nascida e criada em Manhattan. Precisamente, mesmo com o cabelo sujo.

Healing Area

Além da música, da paisagem e claro do convívio livre entre amigos, o Boom também oferece uma série de experiências místicas. Uma delas consiste em estar dentro de uma piscina com alguém que nos pega ao colo e que, durante 40 minutos, nos faz dar voltas ao corpo enquanto estamos submersos na água. Objetivo? Fazer com que passemos pelas mesmas sensações experienciadas no útero da nossa mãe. Pareceu-me interessante mas ao mesmo tempo demasiado aventureiro. Da forma como passamos lá o dia, era gaja para me afogar ou então ficar no útero para sempre.

Este lado mais chanti do festival desperta-me curiosidade e a maior parte dos meus dias foi passada na Healing Area onde o som é feito de batuques e “La Goa” é mais limpa e bonita. Passámos horas a observar pessoas que raramente encontramos por aí. Casais nus a meditar à beira da água, pessoal a fazer yoga em grupo, meninas em ácido a fazerem tranças umas às outras. Parecia o Braveheart em LSD.

Em todas as tendas onde aconteciam atividades como meditações guiadas, aulas de expressão corporal, e mais coisas que não consigo descrever porque estou mais distante da minha espiritualidade que de Tóquio, vinha uma voz feminina que entoava sempre as mesmas frases: “Feel the Mother Earth and the Energy” “We are One” ou “We are Love” eram algumas delas. Confesso que, às tantas, senti uma espécie de Siri do Boom que toda a gente respeitava. A Siri pedia para se meterem de gatas a meditar, um segundo depois estava tudo de gatas. Bandos de pessoas de gatas ou em posição de tartaruga começaram a assombrar as minhas visões. Esta Siri era um pouco perigosa, pensei. Senti ali um ligeiro tom de seita mas não me deixei levar. Foi aqui que, alguém no grupo sentiu o mesmo que eu e disse: “Bora para o Lux?”  De facto era o que pensava. Claro que não há nada melhor que a natureza e a liberdade de expressão mas qualquer coisa no ar me indicava que há uma espécie de comportamento piscadélico-espiritual (se é que isto existe) que as pessoas banais ali adotam para se expandirem durante estes dias. Não há nada de errado em fazê-lo mas parece-me que meditar com 40 graus dentro de uma tenda enquanto se ouve trance do demónio lá ao fundo, talvez não seja o estado mais embrionário de iluminação. Fica a reflexão.

Dance Temple 

Há várias tendas de música mas nenhuma como esta. Para quem aprecia trance (no meu caso durante uma hora no máximo) é o oásis da dança. Mesmo quando não estás no mood de abanar o capacete, é impossível entrar naquele ambiente e ficar parado. Pessoal louco aos pulos de borrifador nas mãos, vai metendo conversa e alargando os grupos. By the way, o borrifador é um instrumento indispensável ao conforto naquele microclima de inferno. Até o Diabo precisa de se borrifar em Indanha-a-Nova. Durante o dia o ambiente é apetecível, à noite parece um pedaço do Mad Max onde o exército do mal se morde para ganhar mais pica para não ir à cama. Nus lavados em lama misturam-se com freaks que já carregam os odores próprios de quem nunca ouviu falar em Nívea. Nada contra mas é a mais pura das verdades. Ainda assim, este espaço consegue engolir-nos de uma forma que só temos sentidos para as luzes, sons, e claro, para borrifar de vez em quando um giraço que aparece.

O Regresso

Foi péssimo. Quando entrei no elevador do edifício onde trabalho não sabia sequer o andar onde carregar. Acho que se o Boom no futuro durar 15 dias, na volta vou ter de passar na loja do cidadão para perguntar o meu apelido. O poder de abstração é tanto que te esqueces deste Universo.

Isso é de valor. E tão raro.

We are Love,

D.

PS: Obrigada meu querido André por todo o amor,  gelo e carregamentos disponibilizados 🙂

Diva segue no Facebook.

Pessoas que sigo no Facebook e que nunca devem morrer.

Porquê?

Porque alegram o meu dia.

São elas: 

. Pessoas que ainda têm o estado amoroso sincronizado com o namorado(a) Diva está em uma relação com Divo. Acho super digno. Por favor nunca desapareçam. (e sim, já lá bati).

. Pessoas que têm fotos de perfil com phones, armadas em DJ, quando na verdade trabalham na charcutaria do Continente.

. Pessoas que percebemos que acabaram uma relação, levaram com os pés ou foram traídas, só pelos posts passivo-agressivos que publicam. Por favor parem com isso. Ou melhor, continuem. Pelo nosso bem, não pelo vosso.

. Pessoas que fazem teasers dos próprios posts. Por exemplo: “Pessoal, amanhã tenho novidades!” No dia seguinte: “Pessoal vou estar a tocar em Santa Maria da Feira” Resultado: 2 likes.

. Pessoas que alteram o seu nome biológico para outro, integrando letras que não utilizamos no nosso alfabeto, em prol de mais personalidade e salero, tais como: Rikardo, Kátia, Soraya.

. Pessoas que não conhecemos de parte nenhuma mas que metem likes e comentam as nossas fotos. Muitas vezes com recurso a corações. Estas figuras de extremo valor, que existem para alimentar o nosso ego, devem ser preservadas com muito carinho. Porque gostam de nós sem motivo aparente e isso tem muito significado.

. Pessoas que fazem mais do que 10 posts por dia. Geralmente parecem criativas, dinâmicas, repletas de vida social. Na verdade pretendem mostrar ao mundo que estão lindamente. Desejo-lhes muita sorte e bateria infinita. Continuação.

. Pessoas que nos enviam convites para tudo e para nada pois devem pensar que a vida é confirmar eventos no Facebook, aos quais nunca vamos. Pessoal marado.

Larguem-me.

Love,

D.

Diva em Encontro Imediato.

Quando encontras aquela alma que não vês há 40 séculos:

– “Então miúda gira!! Estás igual!” Não se lembra do meu nome.

– “O que tens feito?” Queres mesmo que te conte o que me aconteceu nos últimos 15 anos? Melhor arranjares uma cadeira. Ou uma maca.

 “Estás bem?” Fora o Urano quadratura Marte, estou ótima. Era para lhe dizer isto mas depois achei que o meu ar (de quem acordou há 20 minutos) já me dava um aspeto suficientemente alienado.

“Bem, já nem me lembro da última vez que te vi…!” Nem eu. Se não me lembro do que jantei ontem, como haveria de me lembrar da última vez que vi alguém que creio (atenção, “creio”) ter andado comigo no secundário.

– “O meu irmão agora está em Londres…” Mas tu tens um irmão?!

– “E eu agora ando cá e lá” Cá Ok, “Lá”… na Lapónia?!

– “Ainda tens namorado?” Pergunta rasteira. Ele deduziu que ao longo destes 15 anos seria muito miserável eu não ter tido um único namorado. Quase que acreditava. Nice try.

– “Era fixe irmos tomar um café um dia destes!” Encontra-se solteiro, achou-me graça e está ligeiramente desesperado.

– “Agora vives aqui perto?” 

Mais ou menos. Ando cá e lá…

Até breve.

Love,

D.